sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cortar a língua ao mensageiro...

... nunca resolveu problema nenhum. Criou problemas maiores, como aliás diz Fisher Sá Nogueira

A intervenção final do discurso de tomada de posse do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, defendendo a criação de um "órgão com poderes disciplinares efectivos" para os jornalistas assim como o ataque - mais do que criticas - que fez aos media acabam por dar razão a quem critica o funcionamento da Justiça.

Como António Barreto que se pode ler e ouvir aqui e aqui

Posso concordar com parte do diagnóstico que Noronha do Nascimento faz. Por exemplo, quando se refere aos efeitos perniciosos da concorrência num tempo em que o quadro em que se movia o negócio dos media está a mudar sem que ninguém saiba bem em que sentido (veja-se o debate aceso nos Estados Unidos e ainda a reflexão que ali se faz sobre as ameaças aos direitos dos cidaãos e sobre a liberdade da informação.

Não posso concordar com a solução. Nos media, tal como noutros universos da vida portuguesa, não é por falta de entidades reguladoras que não se cumprem as regras e as leis. O sector dos media, bem pelo contrário, está bastante policiado. O problema é mais vasto.

Mas se o problema é a violação da lei, a quem cabe fazer cumprir a lei? A resposta a esta pergunta que acaba por nos levar a concluir que o ataque aos media de Noronha do Nascimento acaba por ser um ataque à Justiça.

Declaração de interesses: Sou jornalista. Como jornalista, profissionalmente obrigada e treinada para o distanciamento na descrição e análise dos factos, fiz aqui também esse esforço e com cuidados redobrados.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Áustria nacionaliza banco

A crise financeira acabou?

O governo austriaco nacionalizou o Hypo Group Alpe Adria, um pequeno banco regional mas com elevada exposição a países de Leste fora da Zona Euro e com risco de contágio a outros bancos do sistema, assim diz o governo de Viena.

As notícias apontam para uma intervenção directa do presidente do BCE. O Telegraph diz mesmo que Trichet obrigou a Áustria a nacionalizar o banco.

Mais pormenores no Alphaville

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Portugal e Espanha menos arriscados que a Irlanda

Os mercados financeiros colocam Portugal ao lado de Espanha e a Irlanda mais próxima da Grécia
» quando se avalia o risco destes países pela diferença entre a sua taxa de juro de longo prazo e a que é cobrada à Alemanha - as duas taxas medidas pela taxa de rendibilidade das obrigações do Tesouro a dez anos - é menos arriscado emprestar dinheiro a Portugal que à Grécia, Irlanda e até Itália.





Irlanda vs Portugal, Espanha e Grécia

O Orçamento do Estado da Irlanda:
» Salários da função pública reduzidos em 5% ( até ao limite 30 mil euros); 7,5% ( sobre valores até 40 mil euros - o que, se bem percebi, incide sobre os valores que vão dos 30 mil aos 70 mil euros) e 10% para os últimos 55 mil euros.
» O salário do primeiro-ministro será reduzido em 20% e dos ministros em 15%.

E muito mais que se pode ler aqui.

Em Portugal estamos na fase de discutir um rectificativo que é um formalismo - legitimar o que já está gasto como se verifica na emissão de dívida.

É pela história já construída e por aquela que se está a fazer neste momento que as agências 'rating' são depois mais "benevolentes" com os anglo-saxónicos.

As criticas que se fizeram às agências d e'rating' por se terem apressado a fazer alertas a países como Portugal deixando a Irlanda mais aliviada da pressão tem nesta história a sua explicação.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Os alertas do FMI

Na sua habitual linguagem cifrada, na sua análise à economia portuguesa aqui no Negócios, aqui e aqui, o FMI avisa:

» os salários da função pública não devem ser aumentados ou, se o forem, devem sê-lo pelos mínimos (os aumentos deste ano foram muito elevados)
» a actualização prevista para o salário mínimo é "desajustada", sinónimo de que não deve ser realizada
» a alteração à regra de actualização das pensões de reforma - por causa da inflação negativa - não devia ter ocorrido e vai ser paga a prazo - ou seja, terá de se ir buscar o poder de compra que se deu agora;
» o défice público, a dinâmica da dívida pública associada ao baixo crescimento e a dívida da economia em geral coloca Portugal numa situação especialmente frágil caso ocorra mais um choque financeiro externo (por ex., se o caso do Dubai se alastrar);
» o défice público tem de ser reduzido em média 1% ao ano;
» é preciso reduzir despesas com os salários da função públicas, com as transferências sociais e com a saúde;
» é preciso aumentar receitas fiscais o que pode passar pela subida do IVA.

Os alertas estão dados. Por muito que não se goste das regras do jogo, estas são as regras do jogo.

A França vai cumprir o limite dos 3% um ano antes do previsto, dizia hoje o FT. E a Alemanha pode já cumprir este ano.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Tratado de Lisboa - agora é a vez dos europeus

Entrou em vigor o Tratado de Lisboa.
Acabou o tempo que dura praticamente desde 2001 - ou até desde a primeira tentativa para preparar a UE para o alargamento que foi o Tratado de Amesterdão a 1 de Maio de 1999 - durante o qual a Europa apenas olhou para si própria.

Ladrões de notícias ou trabalho (dos outros)

Um trabalho da Atributor que encontrei via FT revela que 75.195 sites usaram pelo menos um artigo de jornais norte-americanos sem autorização de 15 de Outubro a 15 de Novembro, realizando receitas com isso - e, obviamente, sem os respectivos custos.

No sector dos media terá de se fazer alguma coisa. As receitas não podem ser públicas e os custos privados, isto é, das companhias que produzem as notícias.

O Google e o Yahoo estão no top dos viabilizadores deste negócio de proveitos sem custos. Os blogues representam apenas 10%.

Revela o FT que o estudo enquadra-se no encontro da "Federal Trade Commission" subordinada ao tema "Como pode o jornalismo sobreviver à era da internet".

A conferência pode ser seguida no Twitter

Não é apenas a sobrevivência do negócio que está em causa. Com o negócio está em causa o jornalismo com toda a sua técnica que garante o rigor e distanciamento contra a má-língua e a propaganda, como registei aqui citando Robert W. McChesney e John Nichols do Washington Post.

Por aqui obviamente que ninguém está preocupado com isso. Uns protagonistas políticos estão contentes com a propaganda, outros com a má-língua.

Jacques Sapir, visões (mesmo) diferentes

A ler a entrevista de Jacques Sapir no Público.
Perspectivas verdadeiramente diferentes do que se passa e de como se pode resolver alguns problemas. Eis a síntese de alguns dos seus diagnósticos e soluções. Discutíveis mas que vale a pena pensar sobre elas sem lhes colocar um rótulo e atirar para trás das costas.

BANCA
"(...) bancos foram salvos pelos governos e pelos bancos centrais, mas não mudaram as suas políticas. Reduziram o crédito concedido e estão a investir o dinheiro dado pelo Estado e emprestado pelos bancos centrais em especulação."
[Veja-se agora o caso do Dubai e os valores ali investidos por bancos europeus. ]

"A única política capaz de resolver isto seria a introdução de um maior controlo do sector bancário pelo Estado. Seja através da nacionalização, seja através da nomeação de uma espécie de supervisor. É um sistema que foi usado nos EUA e também em França durante os anos 30. A propriedade continua privada, mas nomeia-se uma pessoa com poderes efectivos para guiarem a política dos bancos. (...) NOs EUA chama-se 'czar' e já existe hoje no sector automóvel".
[Não estou certa que esta seja a solução. Portugal tem a CGD e não é por isso que o acesso ao crédito de PME's viáveis é mais fácil]


COMÉRCIO LIVRE
" [O comércio é] livre mas não é justo. (...) A produtividade chinesa está entre 30 e 40 por cento da produtividade da Europa Ocidental, mas os salários são dez vezes mais baixos. E isto é um problema. (...) E também temos de proteger famílias europeias das norte-americanas. Como é que podemos ter comércio livre quando um país pode desvalorizar a sua divisa em 20 por cento. Isto é exactamente o que os EUA estão a fazer."
[Sapir propõe tarifas até que os salários de países como a China igualem a produtividade, ou, implicitamente, que anulem as vantagens que os EUA obtêm quando desvalorizam a sua moeda cada vez que estão em crise - pois não sei se não será uma boa ideia]

MERCADOS FINANCEIROS
"E é preciso regular o acesso a determinados mercados. Actualmente, temos muita especulação. No petróleo, vamos de um valor de 35 dólares até 187 dólares por barril, o que está relacionado com a entrada de especuladores financeiros nestes mercados. Os mercados de matérias-primas têm de ser limitados aos operadores que têm efectivamente interesse em comprar ou vender esses produtos."
[O divórcio que hoje se verifica entre fluxos financeiros e reais exige que se adoptem algumas medias para os interligar de novo combatendo assim o risco de bolhas especulativas mas também a ameaça que são à criação de valor nas empresas - esta é uma ideia]

domingo, 29 de novembro de 2009

E agora dos bancos para ... os países?

O mais preocupante é o que o Dubai sinaliza sobre dificuldades adivinhadas de outros países desenvolvidos. Será o Dubai apenas a ponta do iceberg?

É o que já se vai lendo. E é o que começa a dar razão aos ditos pessimistas que perceberam desde o primeiro momento que a crise financeira iniciada em 2007 por causa do endividamento estava a ser resolvida
»com mais endividamento, agora do Estado, na ilusão de que se consegue salvar o mercado.
» premiando os irresponsáveis
» mantendo e alimentando a anti-natura separação entre o mundo financeiro e o mundo económico.

Dubai could be the beginning of a series of sovereign debt issues or crises,” said Mohamed El-Erian, chief executive of Pimco, the giant bond-trading company

The worldwide decline in equities spurred by Dubai’s efforts to reschedule its debt is a sign that government spending alone won’t be enough to protect financial markets, according to Arnab Das of Roubini Global Economics.

Dubai... Crise financeira, Parte II

Os bancos ingleses são os mais expostos a um eventual incumprimento por parte do Dubai.
Para já apenas temos o Dubai World a pedir um adiamento e os Emirados Árabes Unidos a tentarem ajudar o seu irmão em dificuldades.

O Royal Bank of Scotland é um dos mais expostos ao Dubai World - metáfora para dzier que é um dos que pode perder mais dinheiro.
O HSBC é o mais expostos aos Emirados Árabes Unidos.

O RBS recebeu significativas ajudas do Governo britânico - leia-se, contribuintes - e tem 2,3 mil milhões de dólares no Dubai World.
O HSBC, o maior banco inglês, tem em risco 611 milhões de dólares.
Números estimados pela Goldman Sachs, no Times Online

A KPMG vai ser a representante dos credores.

Em causa estão 30 mil milhões de dólares.

Sim, a construção também pode ser perigosa

A construção representa 22,6% do PIB do Dubai.

Em Portugal, o peso da construção no PIB está nos 5%. O máximo que atingiu foi 7%.

Até ao que aconteceu na semana passada poucas ou nenhumas eram as histórias negativas sobre o Dubai. Agora é muito diferente.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Uma dívida pública que assusta


Em dez anos a dívida pública portuguesa passou de 50% do PIB para 91% do PIB.
A explosão da dívida começou o ano passado.
E a dívida é a melhor aproximação ao desequilíbrio orçamental.
Este ano vamos ter o segundo Orçamento rectificativo - para que o Parlamento autorize o Estado a endividar-se mais.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Acordos e desacordos

Presidente e Primeiro-Ministro estão de acordo quanto ao diagnóstico preocupante do doente/País

"A situação económica e social é preocupante"
Presidente da República na tomada de posse do XVIII governo constitucional

"Os tempos são exigentes e difíceis"
Primeiro-Ministro José Sócrates na sua tomada de posse

Mas discordam dos caminhos que se devem seguir.
Um dos exemplos dessa discordância está na importância que Cavaco Silva dá ao endividamento externo, considerando que limita as escolhas disponíveis para promover o crescimento - ou seja, o endividamento externo condiciona ou mesmo impede a concretização das grandes obras públicas.

(A intervenção do primeiro-ministro mostra que não vai ceder - antes quebrar que torcer pode ser o lema. Mais em linha com a sua personalidade mas também viabilizada pelas condições políticas - quem fizer cair o Governo pagará, pelo menos nesta fase, um preço muito elevado.)

domingo, 25 de outubro de 2009

Vale a pena ler...

a entrevista de José Manuel Fernandes ao Expresso. Na sua última semana como director do Público.

Ao longo de toda a entrevista mostra bem que nunca deixou de ser jornalista.

Sobre os tempos que temos enfrentado destaco:

José Sócrates tem um lado totalitário na relação com os media?
O termo é demasiado forte e próprio de um regime que não é o nosso. Tolera mal as críticas e vive mal com elas.

sábado, 24 de outubro de 2009

O excelente trabalho no Negócios

Desculpem-me por ser parte interessada... Mas é preciso reconhecer que o Negócios tem um excelente dossier online sobre o novo Governo.

Claro que reforça as preocupações com o futuro dos media como negócio. Hoje, no sector, "há notícias grátis". A economia do preço zero ou é a nova economia imposta pela internet ou é apenas uma fase de transição - muito difícil como vemos nos media de todo o mundo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Um Governo para o diálogo e a sedução

Acabaram as reformas estruturais dolorosas.
Passámos do confronto e do ambiente de tensão para o diálogo e a sedução.
Um Governo que revela as qualidades políticas de José Sócrates - "a política é a arte do possível". E sem maioria absoluta, o possível é dialogar, é não ameaçar nem retirar direitos das corporações.

E disciplinado e persistente como se tem revelado o primeiro-ministro, é elevadíssima a probabilidade de conseguir ser um novo primeiro-ministro, mais frio e menos "animal feroz" quando discordam dele ou o questionam.

O novo Governo de José Sócrates tem como núcleo duro as Finanças - Fernando Teixeira dos Santos - e a Economia (com o QREN, os fundos comunitários) - Vieira da Silva.

Fernando Teixeira dos Santos terminou a difícil legislatura que foi o governo de José Sócrates com a mais elevada nota de popularidade entre os seus pares. E foi assim praticamente durante toda a legislatura.
Notável. Face ao que fez. Na primeira parte da legislatura - antes da crise internacional nos bater à porta - reduziu direitos aos funcionários públicos, cortou despesas e até aumentou impostos. Na segunda fase conseguiu evitar ser a face da crise, como aconteceu aos seus pares noutros países. Tem até conseguido distanciar-se do complicado processo político, financeiro e judicial do BPN.

Conheciam-se as suas qualidades técnicas desde que foi secretário de Estado de Sousa Franco no primeiro governo de António Guterres. As suas qualidades políticas revelaram-se muito acima da média nos últimos quatro anos.

Vieira da Silva teve a habilidade de realizar profundas reformas com acentuadas reduções de direitos sem qualquer contestação.
Foi o ministro que mais direitos retirou aos portugueses - basta pensar no Código do Trabalho e na Reforma da Segurança Social. E como ministro do Trabalho agradou mais aos patrões que aos sindicatos.
Como diz João Cândido da Silva, Vieira da Silva abandona a defesa dos trabalhadores para passar a defender os patrões. Que, digo eu, segundo os sindicatos, sempre defendeu (os patrões, bem entendido).
Com os milhões do QREN nas mãos e a sua capacidade executiva, estão reunidas as condições de sucesso numa área fundamental para a recuperação da actividade económica. Esperemos é que não se concentre apenas nos grandes negócios - aqueles que não vivem sem o Estado mesmo em tempo de prosperidade.

As reformas que exigirem confronto, como é o caso da Saúde, terão de esperar por melhores dias.
Talvez - e é mais um desejo do que uma convicção - se consiga melhorar a Justiça. Ainda que o curriculum governamental passado de Alberto Martins não prometa nada.

Para a conjuntura económica e política que o país atravessa, as escolhas de Sócrates parecem muito acertadas. A violência das reformas realizadas na última legislatura - quer na forma como foram concretizadas como no seu conteúdo - também recomendava uma nova etapa de mais serenidade.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ongoing, PT, BES... negócios II

" Banco Espírito Santo aplicou perto de 200 milhões de euros na Ongoing"

Os investimentos foram realizados nos fundos de 'private equity' e 'market capital' da Ongoing, revela ainda o Público num trabalho de investigação assinado por Cristina Ferreira e Ana Brito.

Veio-me à memória a entrevista ao director do Expresso Henrique Monteiro no Jornal de Negócios onde se refere a proprietários "ocultos" no sector dos media.

E a lei estabelece que a propriedade os órgãos de comunicação social deve ser transparente.

Depois da notícia de ontem no Publico que se seguiu a uma notícia do Negócios sobre o envolvimento da PT no financiamento da Ongoing, temos hoje o BES.

É preciso explicações como defende João Pinto e Castro . Mas é também preciso ver se as leis estão a ser cumpridas - e estas consagram o princípio da transparência na propriedade dos órgãos de comunicação social.

Empresas em que o Estado está presente - neste caso a PT - não podem dar o exemplo de violação de leis que têm como principal objectivo defender um dos pilares da democracia, a liberdade de imprensa.

Ongoing, PT, BES... negócios

Vale a pena ler

CGD pede explicações sobre investimento dos fundos de pensões e saúde da PT na Ongoing

Tenho-me lembrado - até pode ser um mito - de se afirmar que António Champalimaud comprou o banco com dinheiro... do próprio banco.

Caso TVI - O crime compensa

A ERC considera ilegal a decisão de acabar com o Jornal Nacional de sexta da TVI, que ocorreu a 3 de Setembro em pré-campanha eleitoral para as legislativas, como se pode ler aqui e aqui e aqui a deliberação.

Quais as consequências?
» Processo de contra-ordenação ou seja uma multa
» O facto terá ponderação negativa quando a licença de emissão da TVI voltar a ser avaliada.

Alguém espera que a contra-ordenação, a ser aplicada, seja tão grave que provoque um forte abalo na situação financeira da TVI? Obviamente que não.

Alguém espera que na avaliação ao cumprimento do contrato de concessão esta ingerência da gestão em matérias editoriais retire à Media Capital a concessão? Claro que não.

A violação de regras fundamentais que têm como objectivo proteger a liberdade de imprensa não têm qualquer sanção.

O que aconteceu na TVI mostrou como há crime sem castigo na violação da liberdade de imprensa em Portugal.

Os partidos que defendem a liberdade de imprensa, a começar pelo PS, têm a obrigação de alterar a lei. Para que se consagrem sanções bem mais elevadas que desincentivem actos como os que ocorreram na TVI.

Dizer que se defende a liberdade não chega. É preciso defender a liberdade de imprensa especialmente quando se considera que os media nos estão a prejudicar politicamente. E é preciso demonstrá-lo.

E o PS tem a oportunidade de o fazer mudando a lei. Com toda a certeza que terá mais do que um partido do seu lado no Parlamento.

É com estes pequenos passos que se iniciam as restrições à liberdade.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Paula Teixeira da Cruz e os 99 anos da República

"Os tribunais - a justiça - como a comunicação social, a liberdade de expressão, são sempre alvos prioritários de tentativa de controlo e de empobrecimento dos valores da República”

"É fácil uma democracia perder a qualidade e deixar de o ser. E há muitas formas de condicionar a Liberdade, até a perder”

"Há muito se vêm detectando derivas perigosas e desvios preocupantes”,

A responsabilidade, o trabalho e a exigência ética, que deveriam amparar a qualificação da democracia reivindicada, foram sendo abandonados e substituídos pela lógica do enriquecimento fácil (...) e pela ideia de que os fins justificam os meios, com particular crueza em sectores como a política e a economia

Da intervenção da presidente da Assembleia Municipal da Câmara de Lisboa Paula Teixeira da Cruz.

A dinâmica actual da nossa realidade política e económica é, lamentavelmente, esta, que Paula Teixeira da Cruz tão bem descreveu.

Poucos querem ver. A maioria prefere olhar para o que se vem passando como um jogo lúdico. Aplaude-se quem ganha sem olhar aos meios que usou, sem olhar ao conteúdo e ao significado dessa vitória.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cavaco e Sócrates IV

Uma "boa conversa" que durou 40 minutos.
Esperemos que assim tenha sido.
Já basta a crise económica - outros cenários, como os que se foi ouvindo hoje de não convidar o líder do partido mais votado a formar governo - seria... todos sabemos

Cavaco e Sócrates III

Imprescindível ler Marina Costa Lobo.
Uma análise distanciada.

Especial relevo:
1. Cavaco Silva fez "um discurso que foi um bom exercício de contenção de danos"
2. Cavaco Silva não explicou o que foi o caso das escutas que aqueceu este Verão.

Digo eu:
  • Cavaco Silva estava (ou deixou-se colocar) em xeque-mate - devia ter logo dito dia 18 que só o Presidente falava em nome do Presidente
  • Com a intervenção que fez na sexta-feira deixou de estar em "xeque-mate" - ou seja está em melhor posição do que estava antes de falar -, embora continue em posição de "xeque".
  • A sua narrativa controlou danos e até podemos ( versão especulativa) ver nela pistas sobre o que poderá ter ocorrido no dito "caso das escutas" - na declaração que está a ser ridicularizada sobre a vulnerabilidade dos mails. Hoje o DN diz que o PR substituiu o responsável pela informática em Junho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sócrates e Cavaco II

"Eu sempre me empenhei - e nunca contribui para alimentar esta polémica - numa relação com o senhor Presidente da República e com a Presidência da República que seja institucionalmente adequada e correcta"
José Sócrates, o garante da estabilidade

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cavaco e Socrates - declaração de guerra


Acabou a guerrilha.
Está declarada a guerra entre dois titãs da política portuguesa.
Por causa de escutas que nunca existiram.
Cada um com a sua narrativa sobre o que aconteceu desde Agosto até agora.

E aqui a de Silva Pereira

O campo de batalha passou a ser público.
Cavaco Silva ganhou margem de manobra com a declaração que fez.
E Sócrates mostrou que vai entrar na batalha.
Assim foi a primeira batalha - em empate técnico.

Vamos ter tempos difíceis.

Gostamos mais de nós que os brasileiros

A auto-estima dos portugueses está entre os piores nos conjunto de 33 países... Mas o que "se gostam menos" são os japoneses.

E, por incrível que pareça, apesar de toda a alegria que nos transmitem, temos nós portugueses mais auto-estima que os brasileiros.

Um estudo do Reputation Institute (que não está online) e sintetizado pelo Economist (de onde retiro o gráfico).


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O novo governo

No "Prós e Contras" fica claro que não haverá coligações.

PS, sozinho ou acompanhado?

O PS pode estar entre a escolha de colher os frutos das reformas passadas sozinho e apostar numa maioria absoluta daqui a dois anos e a opção de não arriscar e garantir já uma solução governativa estável com o PP. Que não revelou com Durão Barroso tendência para desrespeitar a coligação.

PS e PP fazem a maioria. PSD e PP poderão ter mais votos que o PS sozinho se os resultados dos eleitores da Europa e Resto do Mundo não derem três deputados aos socialistas - nesta última condição ficam empatados.

A solução governativa mais estável seria uma aliança PS e PP. Como foi a do PSD com PP em 2002.

Mas José Sócrates pode preferir governar sozinho. E repetir 1987 - o ano da maioria absoluta de Cavaco Silva, depois de ter governado em minoria entre 1985 e 1987.

Pode não ser uma estratégia mal pensada. Depois dos efeitos violentos das reformas, o tempo pode ser de colher frutos. E se a economia ajudar, esses frutos podem ser ainda mais visíveis.


O que dizem os números dos resultados eleitorais?
O PS foi o único partido a perder deputados face a 2005. Todos os outros partidos vão estar na Assembleia da República com mais deputados, quando ainda falta apurar quatro deputados do círculo da Europa e do resto do Mundo.

O PS vê a sua representação parlamentar diminuir de 121 para 96 deputados– poderá ainda ter mais dois a três deputados quando apurados os votos dos residentes no exterior. Os votos no PS de 2005 parecem ter-se dispersado um pouco por todos os outros partidos, com o PP e o BE a atraírem mais eleitores que o PSD e o PCP.

O aumento mais expressivo é do CDS/PP. Com 21 deputados (12 em 2005), Paulo Portas regista o mais elevado número de mandatos desde 1987, quando esteve reduzido ao então designado partido do táxi, com quatro representantes no Parlamento. Em 1985 tinha tido 22 deputados que “desapareceram” com a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva.

A segunda vitória cabe ao Bloco de Esquerda que em dez anos passa de dois mandatos para 16.

O PSD também acaba por alargar a sua representação parlamentar, aumentando o seu número de deputados de um mínimo histórico de 75 deputados em 2005 para (pelo menos) 78 deputados.

O PCP, que teve o aumento menos significativo, ganha apesar disso mais um deputado que em 2005, ficando com 16 deputados.

Com este desenho parlamentar a aritmética dos deputados determina que o PS apenas consegue uma maioria absoluta numa aliança com o PP. Se tal vier a acontecer, os outros partidos reduzem o seu poder.

domingo, 27 de setembro de 2009

Mata ou morre

A agressividade, a dramatização, a atitude do mata ou morre e até toda a história de ódios e paixões deste mandato tem esta vantagem: reduzir a abstenção.

Um outro factor: a hipótese de os pequenos partidos serem importantes no novo mandato.

Até ao meio dia tinham votado 21,9% dos eleitores.
Pedro Sales no Twitter: Em 2005 votaram 21,9% até ao meio-dia. Como temos mais eleitores registados, votaram mais 700 mil pessoas

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Um demissão, um tiro no pé

A decisão do Presidente da República de demitir Fernando Lima de assessor para a Comunicação Social é um autêntico tiro no pé.

Depois d eo Presidente ter dito que vai falar sobre segurança depois das eleições, dando-nos a entender que se está a passar alguma coisa de grave, o que significa demitir Fernando Lima?

O assessor do Presidente (agora ex-assessor) acompanha Cavaco Silva desde há mais de duas décadas e não faria nada sem o seu conhecimento.

Se informou a imprensa como fonte - e não "encomendou" - foi com o conhecimento do Presidente. È altamente improvável que tomasse uma iniciativa com esta gravidade sem o conhecimento do Presidente.

Tudo isto me recorda o lamentável caso do ex-PGR.

E, neste momento, já não sei se teria escrito isto.
O Presidente da República deve ser ouvido com atenção. Vamos esperar pelo o que nos tem a dizer depois das eleições. Ou Cavaco Silva resolveu actuar num domínio em que tem claramente desvantagem competitiva.

domingo, 20 de setembro de 2009

E se o Presidente...

... esteve mesmo sob vigilância?

Temos levado esse assunto com demasiada displicência.

Lendo o que escreveu o Correio da Manhã - e depois do que escreveu o Público em Agosto - vale a pena olhar para a hipótese de do Presidente ter mesmo estado sob vigilância.

Se assim for grande parte do comportamento do Presidente começa a fazer sentido, e há respostas para as questões e dúvidas que aqui coloquei.


  1. As dúvidas de Abril tinham de ser confirmadas - face à gravidade do problema o Presidente, dando prioridade à estabilidade do regime, tinha a obrigação se usar primeiro todos os meios antes de envolver as instituições - como PGR .
  2. A mais de um ano de eleições e em plena crise económica, gerar um problema de regime era bastante grave.

Continuo sem compreender porque decidiu o PR informar os meios de comunicação social - informar e não "encomendar" - quer em Abril de 2008 como agora em Agosto, esta última de forma bem clara - é preciso não esquecer que a notícia do Público refere "fonte da Casa Civil", expressão que em regra não é usada para referir aos assessores para a imprensa.

Hipótese para a sua opção de informar o público em geral em Abril de 2008: a) tentar resolver o problema por essa via, ou seja, tentar que quem quer que seja que tivesse colocado a Presidência sob vigilância ou escuta recuasse.

Parece-me que levei com demasiada displicência a notícia de Agosto de 2009 do Público.

Não me parece que o PR usasse uma arma como a da Segurança para combater o Governo.

Enfim, não tenho certezas de nada. Só hipóteses baseadas no que foi a prática de Cavaco Silva como primeiro-ministro. E se o Presidente suspeita estar sob vigilância o assunto tem de ser levado muito a sério.

sábado, 19 de setembro de 2009

"A pequena grande crise"

Vamos fazer de banqueiro central.

Um jogo giro - com poucas opções mas muito interessante - sobre a crise financeira.

Um dia lamentável...

... para o país

Como e porque é que o Presidente da República de um país, com os poderes que a Constituição lhe dá e legitimidade que tem, suspeita que tem a sua equipa sob vigilância há mais de um ano e não desencadeia os mecanismos institucionais para acabar com isso?

Como e porque é que o Presidente da República de um país, considerando que existe um problema de segurança no país, diz que adia a sua resolução uma semana?

Como e porque é que o primeiro-ministro de um país concorda com o Presidente e perante um problema de segurança diz que o importante é continuar a campanha eleitoral?

A irresponsabilidade tomou conta das lideranças políticas?

Se há de facto um problema de segurança - e ao que parece há mais de um ano - têm o dever de acabar com ele.

Só se nada disto não é para levar a sério.
Mais um caso dos muitos que já teve esta campanha eleitoral.
Politiquices perigosas.

Um dia lamentável...

...para o jornalismo

O caso (igualmente lamentável) da Presidência sob vigilância):
  • Um jornal, o Diário de Notícias, revela a fonte de uma notícia de outro jornal, o Público.
  • Um jornal, o Diário de Notícias, diz que a notícia de outro jornal, o Público, foi "encomendada"

O caso da compra de votos de militantes do PSD:

  • Um jornal, o I, afirma que a notícia de uma revista, a Sábado, foi comprada.

A ler

Roupa Pendurada

Este ambiente...

... de mata ou morre que se instalou entre os protagonistas políticos está a tornar a convivência muito difícil e o ar irrespirável

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A política espectáculo

"É a primeira vez que o consigo entrevistar desde que é primeiro-ministro. Os Gato Fedorento conseguiram à primeira"
Maria Flor Pedroso, na entrevista que fez a José Sócrates na Antena 1

Uma extraordinária síntese da grande distância entre o que se diz e o que se faz.

Desde finais de Julho que, em nome do Negócios, pedi uma entrevista a todos os líderes dos cinco partidos representados no Parlamento.

Jerónimo Sousa do PCP e Francisco Louçã do Bloco de Esquerda rapidamente agendaram as entrevistas, conciliando as suas agendas com as prioridades do jornal.

Paulo Portas, do PP, Manuela Ferreira Leite, do PSD, e José Sócrates do PS não tiveram tempo, durante quase dois meses, para dispensar uma hora e meia do seu tempo para serem questionados sobre as políticas que propõem para o país.

Pode ser que até dia 23 de Setembro ainda tenham tempo.

E como se conhece pela orientação editorial do Negócios as questões seriam fundamentalmente sobre o conteúdo das políticas - o que fazer e como fazer. Como foram aliás as entrevistas feitas a Jerónimo Sousa e Francisco Louçã que podem ser aqui vistas parcialmente em vídeo.

Mas todos dizem - os três líderes - que querem falar de de política no sentido de policy e não de política no sentido de politics.
Mas todos dizem que odeiam a política espectáculo, o marketing político, o sound byte que lhes é exigido pelos meios em tempo real como as televisões e as rádios...

Não tenho nada contra os Gatos. Pelo contrário, sou uma grande fã e não perco um. Nem dos actuais, nem os passados. Espero até que o actual programa se mantenha. Quando não há Gatos o país fica pior.

Os Gatos, como as respostas rápidas às televisões e às rádios nos espaços públicos, não são suficientes para contextualizar uma política.

Enfim. Entrevistas de fundo parece que já ninguém quer. A classe política queixa-se do que parece gostar. E do que diz gostar não faz.

Lições para nós, jornalistas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A (frágil) retoma


Tal como o INE, também o Banco de Portugal confirma que que a economia deixou de se afundar por causa do consumo privado.
O aumento do poder de compra, gerado com a acentuada descida das taxas de juro e queda do preço dos combustíveis permitiram esta recuperação do consumo - que pode mesmo ter aumentado em Julho.
A subida do poder de compra de quem está empregado superou a redução dos que perderam o emprego.
A curto prazo este poder de compra vai parcialmente desaparecer com a subida do preço dos combustíveis que se está já a verificar.
A subida das taxas de juro, com impacto nas famílias que compraram casa com crédito virá mais tarde.
A perspectiva de que o desemprego continue a aumentar, com uma nova vaga em Setembro, permite ainda antecipar que esta subida do poder de compra que está a alimentar a retoma seja insuficiente para compensar a quebra registada entre quem perdeu o emprego.
Os tempos e as dimensões m que se verificarem a subida dos combustíveis e das taxas de juro serão determinantes para evitar um novo afundamento da economia portuguesa.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Desabafos

Gostava mesmo muito que a Presidência da República não me estivesse a fazer assistir a isto:

1. Presidência da República teme estar a ser vigiada, no Público de 18 de Agosto pela manhã
"Como é que os dirigentes do PS sabem o que fazem ou não fazem os assessores do Presidente? Será que estão a ser observados, vigiados? Estamos sob escuta ou há alguém na Presidência a passar informações? Será que Belém está sob vigilância?". diz membro da Casa Civil do Presidente

2. Presidência não comenta temor de estar a ser vigiada, notícia generalizada no dia seguinte, 19 de Agosto.

Numa história que começa aqui, no Público, com José Junqueiro e Vitalino Canas do PS a "uma eventual participação de assessores do Presidente da República na elaboração do programa do PSD". Diz Junqueiro: "Se isso se confirmar, se Cavaco Silva autorizar, há uma clara interferência na campanha eleitoral"

3. Afinal o Semanário foi o primeiro jornal a divulgar a colaboração de assessores do Presidente no programa do PSD como se pode ver na síntese de Paulo Querido.

4. E Manuela Ferreira Leite fez eco desse apoio dos assessores do Presidente no seu site Falar Verdade no dia 7 de Agosto.

O que leva a Casa Civil do Presidente da República de Portugal a revelar, dia 17 de Agosto, ao Público, que receia estar sob vigilância, por causa de um comentário feito por socialistas, dia 15 de Agosto, sobre a colaboração de assessores da Presidência no programa do PSD, que já estava nos jornais e no site da líder social-democrata desde dia 9 de Agosto?

Confesso que a última coisa que esperava era assistir a uma guerrilha entre a Presidência da República de Portugal e o Governo a pouco mais de um mês de umas eleições em que se corre o risco de não ter um resultado que garanta estabilidade governativa. Em plena e grave crise económica.

Questões como a possibilidade de um Governo estar a vigiar outros órgãos de soberania são demasiado graves para serem usadas como parecem estar a ser.

Gostava mesmo muito de não estar a assistir a isto.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Longo prazo - o desenvolvimento


A fonte é o último relatório das Nações Unidas.
Portugal foi o país do conjunto dos Quatro da Coesão que fez o maior progresso no desenvolvimento no período de 1980 a 2006 - boa parte concentrado entre os anos 80 e 2003, eras de Cavaco Silva e António Guterres.
Nos últimos anos voltou a registar algum, marginal, progresso.

domingo, 16 de agosto de 2009

Fim da crise? Qual fim?

"É demasiado cedo para decretar o fim da crise financeira"
Axel Weber, presidente do Bundesbank em entrevista ao Suddeutsche Zeitung e traduzida aqui.

Razões: o aumento do crédito malparado.
Um alerta que em Portugal já foi feito pelos presidentes do Santander Totta e BCP, em entrevistas ao Negócios.
E ainda pelo presidente do Deutsche Bank Josef Ackermann como já se tinha referido por aqui.

Enfrentamos um risco muito sério de um novo mergulho em recessão, a tal crise em W.

sábado, 15 de agosto de 2009

(Des)Poupança pública e privada

Retirada de uma intervenção de Michael Porter sobre Portugal.

Dedicada a todos quantos estiveram obcecados pelo défice orçamental (incluindo eu).
Hoje a situação pode ser um pouco diferente.
Mas a falta de poupança privada continua a ser mais preocupante que a pública.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A diferença entre perder e deixar de ganhar

"I-
Alguns dias antes da crise, um consultor financeiro lhe recomenda investir todas
suas economias, que somavam R$100mil à época, em ações. Seis meses depois, seu
portfólio estava avaliado em R$50mil, logo você perdeu 50% de sua reserva
financeira.
II- No início deste ano, um consultor financeiro lhe disse para
deixar todo o seu dinheiro – R$100mil – embaixo do colchão, já que a crise
estava tão forte que mesmo uma aplicação em renda fixa no banco seria arriscada.
Seis meses depois, você verifica que se tivesse investido na bolsa, estaria hoje
com R$150mil, logo você deixou de obter um ganho de 50% sobre seu
patrimônio.
Embora o prejuízo efetivo seja idêntico em ambos os casos, sua
percepção seria bem diferente se você estivesse no cenário I ou no II, não é
mesmo? No primeiro caso, você provavelmente estaria querendo esganar seu
consultor de investimentos; enquanto que, no segundo, suas chances de perdoá-lo
(“melhor pecar por excesso de zelo do que pela falta”) seriam bastante altas. Só
que isso não significa nada em termos reais, é só a percepção dos fatos, uma
ilusão: nos dois casos, sua perda foi de R$50mil ou 50% do seu patrimônio. Tão
simples quanto isso.
"
Toca Raul!!! usa este exemplo para criticar Paul Krugman - que disse que afinal não vamos ter uma grande depressão como a de 1929.
Discordo da crítica. A história que conta é óptima mas para ilustrar o valor que damos a quem gere o nosso dinheiro com extrema prudência.
As preferências são neste caso - como em muitos outros - assimétrias: preferimos não ganhar a perder.
E a banca ia pagando um preço muito alto por não ter ajustado a sua oferta a essas preferências - ou, mais grave ainda, por ter pensado que esta a respeitar essa preferência para si para os seus clientes.
Os banqueiros estiveram na última mais de uma década a avaliar mal o risco

terça-feira, 11 de agosto de 2009

TAP: racionalidades em conflito

A renovação da frota automóvel por parte da TAP é um interessante caso de conflito de racionalidades.

A racionalidade financeira recomendava que se substituíssem os carros - reduz os custos. (não há a alternativa de acabar com o direito a carro a quem já o tem).

A racionalidade económica e social recomendava que se mantivessem os mesmos carros dada a conjuntura em que vive a empresa - prejuízos e salários sem aumentos.

Consciente ou inconscientemente, a administração da empresa escolheu a racionalidade financeira. E reacendeu a instabilidade económica e social na empresa.

Qual teria sido a melhor escolha? Se a greve assumir a dimensão que os sindicatos afirmam - 70% dos trabalhadores - os prejuízos financeiros causados podem ultrapassar a poupança

domingo, 9 de agosto de 2009

A crise vista pela Rolling Stone


"The Great American Bubble Machine" na Rolling Stones. A máquina é a Goldman Sachs

A conjuntura...

... mostrada.

Liberdades - editorial e de oportunidades

A ERC deve merecer todo o nosso respeito institucional. Mas parece não o querer.
A decisão de limitar a liberdade editorial recomendando que se suspenda a colaboração, em colunas de opinião, de todos quantos constem das listas de candidatos às próximas eleições é:
  • levar a um tal limite a igualdade de oportunidades que, no limite, todos deveiam ter acesso aos espaços de opinião dos jornais, rádios e televisões
  • elevar a igualdade de oportunidades a um valor quase absoluto, acima da liberdade editorial e até, como salienta a Confederação de Meios, acima do direito ao trabalho.
  • No limite, para se respeitar o entendimento de igualdade de oportunidade subjacente à recomendação da ERC, assim que nascemos devíamso todos ser colocados no mesmo espaço para termos oportunidades iguais.

O que é mais assustador - além da incompreensão do que é a liberdade de imprensa e editorial e o que é, no limite, a liberdade individual - é saber que a ERC, como funciona, é o resultado do entendimento dos dois grandes partidos do regime, o PS e PSD.

Há muito a corrigir nos media, em Portugal, como no mundo em que há liberdade de imprensa. Mas não é por aqui.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Os prejuízos das Empresas do Estado

O Relatório de 2008 do Sector Empresarial do Estado foi divulgado hoje. Alguns pontos que vale a pena reter:
  1. Prejuízos globais ultrapassam os mil milhões de euros, mais 165% que em 2007. Mas podem ser explicados pela queda da bolsa com impacto na Parpública.
  2. Os prejuízos operacionais depois de subsídios - que medem a margem do negócio sem os efeitos financeiros - foram de 403,9 milhões de euros, contra 169,4 em 2007, mais 338,4%.
  3. Os Transportes - um clássico - e a Saúde - o que começa a afirmar-se - são os sectores que alimentaram estes prejuízos.
  4. Os subsídios concedidos pelo Estado diminuíram. Justificação no relatório: a queda deve-se à redução dos subsídios para investimento por causa do fim do QREN.
  5. O recurso a empréstimos aumentou 47,9%, subida que é explicada por três empresas: Parpública - sociedade financeira afectada pela queda da bolsa -, Refer - um clássico - e as Estradas de Portugal.

Os novos monstros começam a crescer.

Homens e mulheres

Terminando o domingo




Tirado de Toca Raul!!! Blog do Raul Marinho

A origem das perdas na banca

A perspectiva de perdas da banca agora com o crédito malparadoEncontrado aqui com fonte no relatório do BIS

domingo, 2 de agosto de 2009

A crise em W... ou em WW

This crisis has consisted of a series of earthquakes, with changing epicenters (...) Bad loans are the next wave. Banks that have fared relatively well so far will also be affected by this.”
O problema será o crédito malparado de empresas e consumidores. No segundo trimestre o Deutsche Bank colocou mil milhões de euros em provisões para perdas de crédito, contra os 135 milhões em 2008, no mesmo trimestre.
O presidente do Santander Totta Nuno Amado fez declarações no mesmo sentido na entrevista que deu ao Negócios - publicada na sexta-feira passada. Diz Nuno Amado que os próximos 18 meses vão ser ainda piores. Para a banca por causa do crédito malparado.
Esta promete ser uma crise em W. E esperemos que seja apenas um W. E não WW

A frase do dia

"Vou hoje, depois desta visita, começar as minhas férias, embora com muito trabalho devido ao número de diplomas que me acompanham para o Algarve (...) e que quase enchem um bom jipe".
Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva no Redondo

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A (diferença de) opinião dos banqueiros

Ricardo Salgado, Presidente do BES

Sobre o resultado das próximas eleições:
"Não escondo que o Governo português não virou a cara àcrise, tem feito aquilo que pode e sabe para combater acrise. Muitas coisas positivas têm sido feitas, mas os resultados ainda não estão à vista. (...) Não haver uma maioria absoluta pode ser negativo para o nosso desenvolvimento.", Entrevista ao Negócios, 18 de Junho de 2009

Sobre os Grandes Projectos, TGV e Novo aeroporto:
"Temos que acelerar a integração ibérica, O desenvolvimento futuro de Portugal passa pelos serviços de transportes e por isso precisamos do aeroporto e do TVG”, 28 de Julho de 2009, na apresentação dos resultados semestrais, com um power point preprado para esta pergunta

Nuno Amado, presidente do Santander Totta
Sobre o resultado das próximas eleições:
"[Maioria absoluta] É desejável. (...) Porque as condições do país são mais difíceis do que aquelas que muitas vezes nos fazem crer. As condições do país, em termos de modelo e endividamento, necessitam de uma estratégia que é mais fácil concretizar com maioria noParlamento."

Sobre os Grandes Projectos, TGV e Novo aeroporto:
"Atento o facto de termos um nível de endividamento que, naminha opinião, já está em valores que não seria positivo continuar a crescer como no passado, qualquer projecto [público, como o TGV] deve ter critérios de aferição.(...) Não sei se já passaram pela autoestrada entre Lisboa e Madrid e viram o tráfego que tem? Tem pouco tráfego.", Entrevista ao Negócios, 31 de Julho de 2009


Indicador político avançado

Na conferência do Diário Económico, quando cada um dos líderes falou:

José Sócrates - cerca de 80 pessoas
Manuela Ferreira Leite - 155 pessoas

De regresso


sexta-feira, 12 de junho de 2009

António Barreto no 10 de Junho...


... a ler e reler
(...)

(...)

Cristiano Ronaldo: Irracional e imoral

A transferência de Ronaldo para o Real Madrid não é apenas irracional. É imoral.

E é lamentável assistir à histeria colectiva de contentamento com os valores envolvidos.
É verdade que só há um Ronaldo. Mas o valor que acrescenta ao Real Madrid não pode ser equivalente.

Numa altura em que se criticam os salários de tanta gente aceitar uma transferência destas com entusiasmo não tem explicação.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sobre a vida por aqui: o BPP

Vale a pena ouvir as explicações do ministro das Finanças sobre a solução para o BPP.

Garantir as aplicações dos clientes do BPP em produtos de "retorno absoluto" era abrir uma caixa de Pandora. Todos quantos estão a perder dinheiro com as suas aplicações poderiam reivindicar exactamente o mesmo.

Quem trabalha na banca sabe bem o que tem tido de enfrentar. Clientes desesperados com a perda de valor das suas poupanças porque nunca compreenderam bem onde estava a colocar o dinheiro. Confiavam no "senhor do banco".

É o preço que estamos a pagar pelos excessos de desregulamentação em defesa da liberdade individual de escolha absoluta, mesmo quando sabemos que há pessoas a quem a sociedade não deu as ferramentas necessárias para fazer escolhas informadas. Como, neste caso, educação financeira.

Queremos, alguns, agora encontrar uns culpados. Quando na realidade todos fomos cúmplices com a classe política a liderar essa grande orientação de reduzir os poderes e os instrumentos dos reguladores que enfrentavam (e vão continuar a enfrentar) poderes sempre mais fortes e dissimulados que os seus.

A coesão do euro

A ler Barry Eichengreen no FMI sobre o tema tabu: a tentação de sair do euro





A probabilidade dada pelo "mercado" de um país sair do euro até 2010 pode ser vista aqui mais acualizada (está mais baixa).

A tentação de alguns países, mais afectados pela crise do que outros, de estarem fora do euro.

O que está a contecer prova que podem existir choques assimétricos na área do euro - aspecto recusado por muitos economistas na altura da estreia da moeda única. E expõe de novo o debate, no lançamento do euro, sobre "zonas monetárias óptimas".

A tentação é visível na pressão que estão a sentir nas taxas de juro que alguns, como a Irlanda e a Grécia, estão a pagar pela sua dívida pública. Não pagariam menos mas poderiam desvalorizar a moeda, melhorando a sua competitividade e, por essa via, evitando taxas de desemprego tão elevadas - como as da Irlanda e de Espanha.



Obviamente que se a Zona Euro tivesse - como devia ter - um orçamento para enfrentar estas crises -ajudando os mais violentamente afectados pela crise, como a Irlanda e a Espanha, não estaria com tantos problemas.


Como diz o FMI, esta crise é também um teste de coesão aos países da Zona Euro.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Em Belém mantém-se a sensatez

O Presidente da República não promulgou as alterações à lei do financiamento dos partidos.

Aquela lei meio aprovada à socapa por todos os partidos e que apenas mereceu criticas de um deputado, o socialista António José Seguro.

Um dos argumento do Presidente é obviamente o mundo em que queriam ficar os partidos: um modelo de financiamento "tendencialmente público" como tinha aprovado anteriormente, e aumentar significativamente a possibilidade de doações privadas sem se saber quem dava o quê.

O mal que o financiamento dos partidos está a fazer às democracias recomendava que a classe política fosse mais sensata e procurasse solução mais adequadas para um tema destes, tão debatido no mundo.

Por vezes parece que o maior inimigo dos partidos e da democracia são os próprios políticos.

A actuação do Presidente da República tem sido determinante para limitar os danos que se estão a fazer ao regime.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Constâncio e a irresponsabilidade dos políticos

Transformar Vítor Constâncio no culpado pelo que a banca fez é de uma demagogia e cobardia inacreditável. Mais uma vez a classe política a fugir às suas responsabilidades.

Quem fez as leis que o Banco de Portugal cumpre? Tal como as leis que todos os reguladores do mundo ocidental cumpriam tal como os meios que os governos lhes davam.

Portugal tal como os países ocidentais seguiram a linha da desregulamentação. A linha da libertinagem, confundindo mercado com selvajaria. Todos foram cúmplices.

E o PSD e PP não estão isentos dessa responsabilidade de desregulamentação sem qualquer educação financeira.

A classe política, pelas opções que escolheu para resolver as falhas de mercado, é a principal e única responsável pelo que se passou. Foram os parlamentos e governos que criaram e viabilizaram o enquadramento jurídico que permitiu que acontecesse o que aconteceu.

Crise e escolhas

O que pode significar a Europa virar ainda mais à direita com o que todos dizem ser uma crise do capitalismo?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

...

O BPN tornou-se um buraco negro por onde vai sendo sugada a nossa democracia.
Fernando Sobral

O Presidente a explicar as poupanças

O BCE, a inflação e a crise

As criticas de Angela Merkel ao BCE - que se prepara para concretizar a compra de 'covered bonds' para influenciar as taxas de juro de longo prazo - são bem vistas pelo FT como a violação de uma regra que a Alemanha impôs de alguma forma a todos os parceiros do Euro.
Os franceses foram sempre os campeões das criticas ao BCE - porque, na sua visão, a política monetária era demasiado restritiva.
Os alemães falam agora porque, na sua visão, a política monetária é demasiado expansionista.
A Alemanha é obcecada com a inflação. As eleições impõem o ataque ao BCE. Por este ter entrado, ainda que de forma tímida, pela via das "medidas não convencionais" de combate à crise como já fizeram os seus parceiros da Reserva Federal e do Banco de Inglaterra.
Se a inflação estiver aí a chegar - a zona euro terá de escolher entre ir com a onda de inflação dos Estados Unidos ou viver mais tempo em recessão ou mesmo deflação por causa da valorização do euro - provocada pela busca de protecção por parte dos investidores.
O mundo é mesmo global - para o que se acha bem e para o que se acha mal. E é global com uma potência - América/dólar.
No início dos anos 90 a Alemanha lançou a Europa na recessão porque o efeito inflacionista da unificação alemã (com o marco a um por um) foi paga com taxas de juro mais elevadas.
Nesta crise não consegue impôr a sua preferência de "antes crise e desemprego que inflação".
Os americanos escolheram inflação e é isso que se vai ter - caso a economia comece a recuperar a curto prazo.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Cavaco e o investimento

A notícia do Expresso sobre a compra e posterior venda de acções da SLN por parte de Cavaco Silva foi escrita com todo o cuidado e até justificada.
Só é notícia porque o Presidente fez um comunicado sobre o caso BPN e não revelou essa operação - e esse é o único erro que se pode apontar ao Presidente -um erro de comunicação.

As análises e opiniões que se seguiram à notícia do Expresso é que são inacreditáveis, irresponsáveis, marcadas pela ignorância ou até reveladoras de uma moral anti-investimento e lucro.

Vejamos os factos:
1. Aníbal Cavaco Silva, cidadão, investiu poupanças num grupo - a SLN - que tinha (e parcialmente ainda tem) no seu património, além do BPN, o British Hospital, a IMI - Imagens Médicas Integradas, a Real Seguros, o Hotel do Caramulo, a Murganheira, a Tapada de Chaves...

2. Investir numa empresa - para o caso de andarmos esquecidos - é dotá-la de capital para que ela possa criar valor - produzir mais, criar empregos, acrescentar valor .... Não é jogar - pode parecer pelas brincadeiras que têm sido notícia, mas não é. Quando investimos numa empresa estamos a investir num negócio.

3. Qualquer investimento tem como objectivo criar valor que se concretiza na distribuição de lucros ou na valorização do investimento - caso em que vendemos as participações com mais valias como aconteceu com Cavaco Silva.

4. Não é ilegal - todos reconhecem - nem ética e moralmente condenável investir empresas e daí retirar mais dinheiro do que se investiu - esse "mais dinheiro" corresponde ao valor criado. Pelo contrário, quem nos dera que mais pessoas investissem em empresas e mais pessoas as gerissem de forma a criarem valor - não seríamos tão pobres.

5. Um último ponto para dizer que no caso do investimento de Cavaco Silva, como o grupo não está cotado em bolsa, estamos perante um negócio entre privados.

É lamentável que se tenha chegado a este ponto.
Será necessário sujar toda a gente?
Alguém tem dúvidas que Aníbal Cavaco Silva é um político sério e que defende os interesses do País?
Foi dez anos primeiro-ministro e regressou à sua anterior profissão de professor.
Se não há dúvidas, onde queremos chegar? À auto-destruição?

Tenhamos juízo. Um dia, este sujar toda a gente, em vinganças contra moinhos de vento ou manobras de diversão, dá mau resultado.