quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A CGD, o Governo e a nova administração (e bom jornalismo)

Foto do Expresso, António Costa e Mário Centeno

Começo pelos factos, retirados do excelente trabalho de jornalismo de Maria João Gago e Marta Moitinho Oliveira no Negócios:

O BCE chumbou 8 dos 19 administradores da CGD. Todos não executivos. Entre eles estão Leonor Beleza (presidente da Fundação Champalimaud), Carlos Tavares (presidente do grupo PSA Peugeot Citroën) , Bernardo Trindade (director de projecto do grupo hoteleiro Porto Bay), Ângelo Paupério (co-presidente executivo da Sonae), Rui Ferreira (presidente da Unicer), Paulo Pereira da Silva (presidente da Renova), António da Costa Silva ( presidente da Partex) e Fernando Guedes (presidente da Sogrape).

Em termos simples, não passaram num dos critérios exigidos para o cargo: a disponibilidade.

Três administradores executivos têm de fazer um curso de gestão bancária estratégica no INSEAD. São eles João Tudela Martins, que actualmente desempenha funções de gestão e controlo de risco no BPI; Paulo Rodrigues da Silva ex-administrador da Vodafone de onde saiu em 2009, tinha estado antes disso no BPI; Pedro Leitão, actualmente na Angola Telecom.

No prazo de seis meses é preciso arranjar um ‘chairman’ para a CGD. António Domingues não pode acumular essa função com a de presidente executivo.

O secretário de Estado do Tesouro Ricardo Félix quer alterar a lei bancária para que alguns dos administradores chumbados possam assumir essas funções.

A minha análise e opinião:
Lições não aprendidas - As más práticas de governo das sociedades foi uma das muitas razões para s problemas que tivemos com o BPN, BPP, BES e Banif. E para os problemas que enfrentam hoje a CGD e o BCP por exemplo, com a nomeação de algumas pessoas que me dispenso de identificar. A leveza com que o secretário de Estado diz que muda a lei para a ajustar aos perfis que quer é um sinal de que não aprendemos nada com o que nos aconteceu nos bancos. Além disso, mostra que a escolha do Governo foi feita sem levar em consideração da lei que existe no país – não é o BCE.

Experiência e Disponibilidade -  A equipa da Caixa que o Governo validou está longe de respeitar as melhores práticas. Pessoas sem experiência necessária na banca como se vê no caso de três executivos que terão de frequentar cursos de gestão bancária. Pessoas sem disponibilidade para acompanharem e supervisionarem a gestão executiva, como se viu no fundamento para o chumbo de oito administradores.

Fiscalização - A disponibilidade dos administradores não executivos é ainda mais relevante porque o Governo mudou o modelo de governação da Caixa a meio do processo de nomeação da nova administração. No modelo original existia uma comissão fiscalizadora autónoma. No novo modelo essa comissão de fiscalização emana da equipa de administradores não executivos.
Já tinha escrito sobre este tema em Julho no Observador: “O caso da CGD é um guia para aprender o que não fazer”

Concorrência - Aos problemas formalmente identificados pelo BCE para chumbar 8 administradores não executivos junto mais um. Como se sabe, os administradores vão ter acesso a toda a informação dos clientes da CGD. Na lista de administradores encontramos líderes de grupos económicos que têm concorrentes. Vão ter ou teriam acesso a informação privilegiada dos concorrentes, dos fornecedores e dos clientes. O que coloca graves problemas de distorsão da concorrência (parece que a DG Concorrência, sempre tão preocupada com a sua cartilha e os negócios da banca não deu conta disso ou não tem competência para se pronunciar.

O silêncio – Perante tudo isto, o silêncio de todos os partidos e dos líderes de algumas empresas é ensurdecedor. Apenas uma pessoa, Eugénio Rosa do PCP tem escrito e falado sobre o tema. Veja-se no  Observador: "Parece que se perdeu a vergonha"

Estamos a caminho de cometer exactamente os mesmos erros do passado com a CGD e com os outros bancos. Responsabilizar depois aos colaboradores da Caixa pela destruição de valor que por lá tem existido não é só injusto, é pouco sério.

Já nem falo da humilhação do país, de ver chumbada a proposta do Governo ara a administração da CGD pelo BCE, com parte desse “não” justificada pela lei de Portugal, a crer no que diz o secretário de Estado quando defende a mudança da legislação que pretende fazer.

Já gastamos muito dinheiro com os bancos. Contas por alto e apenas para aqueles que foram intervencionados já vamos em 13 a 14 mil milhões de euros . Claro que ainda há activos para vender. Mas, para já, esse dinheiro está empatado, tem o custo do juro e de não se conseguir fazer outra coisa com ele.

Deixem-me finalizar com o sublinhado para o bom jornalismo que foi feito no Negócios e noutros jornais. Que não se ficam pelos primeiros parágrafos de um comunicado que dizia que O BCE tinha decidido “favoravelmente a proposta de nomeação dos corpos sociais da CGD”. Para só mais à frente explicar, parcialmente, o que se tinha passado.

Para quem quer ter informação de qualidade feita por jornalistas de qualidade é bom que vá pensando que não há almoços grátis.

Para que se possa ver a diferença entre aquilo que se queria comunicar e todo o trabalho de investigação feito pelo Negócios, em muito pouco tempo, e em tempo de férias, deixo aqui na íntegra o comunicado do Ministério das Finanças:

"Modelo de governação e de administração da CGD aprovado pelo BCE  
O Banco Central Europeu (BCE) decidiu hoje, favoravelmente, a proposta de nomeação dos corpos sociais da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Esta decisão do BCE aprova a estrutura de governação da instituição proposta pelo Governo. Nomeadamente, o BCE considera adequada a estrutura de controlo composta por: 
a. Um Conselho de Administração alargado, em que os administradores não executivos terão funções de controlo da Comissão Executiva através de Comissões Especializadas; 
b. Um Conselho Fiscal, que será o órgão de fiscalização da CGD e que terá assento, por inerência, na Comissão de Auditoria e Controlo Interno. 
O BCE atestou a adequação e a idoneidade de sete administradores-executivos propostos, de quatro administradores não-executivos e dos quatro membros do Conselho Fiscal.  
Aprovou também a acumulação pelo Dr. António Domingues das funções de Presidente do Conselho de Administração e da Comissão Executiva.  
A separação das funções de Presidente do Conselho de Administração e de Presidente da Comissão Executiva foi considerada necessária no prazo de seis meses. Período esse que o Governo utilizará para analisar com o Banco de Portugal e com o BCE esta questão. 
O Regime Geral das Instituições de Crédito e das Sociedades Financeiras (RGICSF) impõe um limite ao número de funções desempenhadas em órgãos sociais de outras sociedades. Um regime que é mais estrito que o imposto pela diretiva comunitária. De entre os administradores não-executivos propostos oito excediam este limite. O processo de conformidade levaria a uma maior morosidade do processo de nomeação.  
A nomeação dos restantes administradores não-executivos será feita num curto espaço de tempo já que não houve sobre estes qualquer objeção relativamente à adequação ou idoneidade, nem foram identificados quaisquer conflitos de interesses impeditivos.  

A nomeação destes administradores não-executivos completará o Conselho de Administração, assegurando assim o funcionamento de todas as comissões especializadas que integram a estrutura de governação aprovada pelo BCE." (Fim de citação do comunicado do Ministério das Finanças de 17 de Agosto de 2016 às 21:30).   

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Emprego, indicador avançado da retoma?

O Ministério das Finanças pronuncia-se sobre os dados de evolução do PIB divulgados pelo INE nestes termos:
 "A economia portuguesa cresceu 0,8 por cento face ao segundo trimestre de 2015. Uma evolução inferior à que está subjacente ao Orçamento do Estado de 2016. A economia está assim a levar mais tempo a acelerar o ritmo de crescimento".

Pensei que finalmente se ia reconhecer que a economia está a travar e é preciso reorientar a política económica (em tempos de incerteza e restrição financeira desculpem lá mas continuo convencida que a ferramenta de actuação mais importante é a conquista da confiança de quem investe).

Mas a seguir leio:
"Contudo, nos próximos meses, o crescimento económico deverá ser sustentado nos sinais de franca recuperação do mercado de trabalho".

Os números do emprego relativos ao primeiro trimestre foram de facto muito positivos como se pode ver aqui e ler o que escrevi sobre isso aqui. Mas são do segundo trimestre de 2016 e reflectem o passado, não antecipam o futuro.

Todos os estudos em todos os países provam que o mercado de trabalho reage com atraso em relação à recuperação da economia. Em Portugal as estimativas são de seis a nove meses. É aliás por causa disso que os cidadãos em geral não compreendem que os economistas falem em retoma muito antes de eles a sentirem no emprego, seu ou dos seus amigos e familiares. É aliás por causa disso que, partidos que estão no poder, quando a economia já está a sair da crise, perdem eleições.

O emprego sempre foi um indicador "atrasado" da recuperação económica e nunca um indicador "avançado".

Penso que percebo a teoria subjacente a este comunicado: mais emprego vai gerar mais consumo e com isso o PIB vai subir.
É outra linha da teoria: recuperação dos salários da função pública e redução do IRS vão aumentar o poder de compra e por sua vez o consumo e por sua vez o PIB. O que não aconteceu. Não tendo efeitos pelo preço (subida do poder de compra), espera-se agora que tenha efeito pela quantidade (subida do número de postos de trabalho).

Não conheço nenhuma investigação que prove que o emprego é um indicador avançado do crescimento económico tendo por base este ou outro raciocínio.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

A revolta dos accionistas. Atenção gestores

É o fim de uma era? 
Os accionistas estão a revoltar-se contra os excessos de bónus e prémios dos gestores.
Já é significativa a lista das empresas que mereceram um sinal vermelho dos accionistas, em votações não vinculativas mas mesmo assim importantes pelo sinal que dão de mudança dos tempos, de novas preocupações. 

Deutsche Bank e Goldman Sachs foram os mais recentes a receberem a censura dos accionistas. Mas já aconteceu com a Renault (com o Estado francês a liderar a revolta), o Citigroup e a BP.

Entre os accionistas de peso que já lançou uma campanha contra os excessos nos prémios, bónus e afins dos gestores está o fundo soberano da Noruega.

Eis o artigo do FT que faz uma boa síntese do tema: 


O mundo está a mudar para melhor? As preocupações com a desigualdade justificam a revolta. Os mais cínicos dirão que finalmente os accionistas começam a sentir na pele que ganham menos que os gestores - as empresa stêm prejuízos e desvalorizam em bolsa enquanto os gestores continuam a propor-se prémios. Seja qual for o motivo, o resultado que se promete é positivo.

(Sim estou de volta - a tentar pelo menos - ao Visto da Economia)

domingo, 28 de setembro de 2014

Ferramentas para jornalistas - a matemática que é preciso

Para os meus alunos de Jornalismo Económico na Universidade Lúsófona aqui ficam alguns links muito úteis - também para mim :-) e para nós.


Media Reporting - Math for journalists - Gosto especialmente da frase:
"No number has any meaning unless it is compared with something else."

Journalism and math
 

sábado, 27 de julho de 2013

A reforma IRC ou o poder sobre o poder?

O tempo é de férias. Mas é impossível não pensar. Especialmente quando nos confrontamos com iniciativas importantes para todos nós, portugueses, em tempo de pré-férias. Falo da proposta de reforma de IRC que aponta para uma redução do imposto sobre os lucros das empresas de 31,5% para 29,5% (incluindo a derrama estadual e municipal).

Teoricamente, menos tributação dos lucros (e dos rendimentos de capital em geral) significa mais investimento, quer em empresas já existentes como em novos projectos. São, teoricamente, ambientes mais amigos do investimento que cria emprego. Teoricamente, sim. Porque na prática pode não ser assim:

« A realidade tem demonstrado que só há um efeito significativo no investimento e sobretudo na atracção do investimento estrangeiro quando a descida das taxas é significativa. Descer a taxa marginalmente serve para muito pouco ou nada;
« A situação financeira do Estado não permite uma redução significativa imediata das taxas de IRC. Para que serve então essa descida mínima - pressuponho que as reduções de impostos têm como objectivo aumentar o bem estar global da sociedade e não melhorar a situação apenas de um grupo limitado enquanto os outros ficam na mesma ou pioram;
« Uma descida marginal da taxa de IRC que não não tem um efeito de aumento global do bem estar da sociedade, quando se estão a cortar pensões de reforma e salários, se está a reduzir o Estado social na saúde e na previdência e a aumentar impostos sobre os rendimentos do trabalho e sobre o consumo parece ser uma escolha que favorece grupos com poder junto do poder. E estes são quadros que manifestamente não garantem o desenvolvimento, para dizer o mínimo.

Dois últimos pontos:
« Baixas taxas de imposto não garantem iniciativas de investimento sustentáveis a longo prazo, como aprendemos dolorosamente com o caso da Irlanda;
« Entrar num processo concorrencial de atracção de investimento através de taxas de imposto é equivalente a processos de desvalorização cambial competitiva: todos ficam pior ou na mesma. Ou será que se pensa que os países com que queremos concorrer (Polónia e República Checa, referidos no documento da proposta) com a redução do IRC nada vão fazer?

A simplificação e a estabilidade do regime fiscal é mais urgente do que as medidas de redução da carga fiscal sobre as empresas, quando ainda nada se pode fazer pelos cidadãos em geral, dos mais desfavorecidos aos que pertencem a uma classe média em risco de empobrecimento.

Quando se está a reduzir tão significativamente os rendimentos presentes e futuros, em dinheiro e em espécie, dos cidadãos em geral, aumentar o rendimento de alguns exige uma justificação que demonstre, sem equívocos, os benefícios que daí se retiram para toda a sociedade. Ou seremos de novo uma "sociedade extractiva", aquela que faz "falhar as nações".  Já basta o que se tem visto (e compreendido como o mal menor) com as PPP rodoviárias, as rendas da energia, o BPN e os 'swap'.