terça-feira, 6 de maio de 2008

Os salários dos gestores e... dos outros


Este é um gráfico que relaciona o salário médio da administração das 20 maiores empresas cotadas em bolsa com o custo por trabalhador. O Jornal de Negócios publica hoje um trabalho sobre os salários dos gestores das 20 maiores empresas cotadas na bolsa portuguesa. Um trabalho da jornalisa Elisabete Sá.
Um administrador do PSI 20 ganhou em média 22,7 vezes o que recebeu em média quem trabalha nessas empresas com outras funções. Ou seja, para receber o que o administrador recebeu num mês teves de trabalhar 23,7 meses.
A Sonae SGPS - liderada por Paulo Azevedo, filho de Belmiro de Azevedo - está no topo. O salário médio da administração foi, o ano passado, 164,1 vezes a remuneração média dos outros trabalhadores.
Segue a PT. A adminitração de Henrique Granadeiro ganhou em média 98,8 vezes mais que os outros empregados.
No fim está a REN, com uma relação de 4,8 vezes.
O que justifica estas escandalosas diferença? Ensaiemos umas respostas no universo da racionalidade económica:
  1. Os administradores são bastante mais produtivos que os restantes trabalhadores da empresa e merecem, por isso, um salário superior. Esta é a tese da necessidade ou antes o valor absoluto a determinar o valor, um pouco como a ideia de que a água devia valer mais que o diamante. Mas terão estes senhores - sim senhores, porque senhoras parece que não existem para gerior empresas - um valor absoluto tão elevado? Mas como é isso possível se em alguns casos o valor das empresas caiu e os resultados também? No caso da Soane o ano até foi marcado por fracassos - como o da OPA à PT? Esta
  2. Os administradores são poucos. Usando a resolução do paradoxo da água e do diamante, o seu valor é determinado pelo rendimento marginal que geram. Mas que rendimento marginal geram alguns deles? E na relação entre o rendimento marginal com os outros trabalhadores, a diferença será assim tão grande?

Resta-me a explicação do desequilíbrio de poderes: como são eles, administradores, que decidem o seu salário optam pelo valor mais elevado. E como a maioria das nossas lideranças está marcada pelo novo riquismo, o resultado é este.

Vale a pena revisitar o discurso do Presidente da República na sua Mensagem de Ano Novo para 2008 sobre esta matéria:

"Sem pôr em causa o princípio da valorização do mérito e a necessidade de captar os melhores talentos, interrogo-me sobre se os rendimentos auferidos por altos dirigentes de empresas não serão, muitas vezes, injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores."

E vale a pena ler o editorial de Luísa Bessa.

5 comentários:

Daniel Conceição disse...

E também não vale a pena indexar automaticamente os salários dos Administradores aos resultados, porque este podem nem sempre ser verídicos, ainda que auditados por empresas de grande prestígio. Por outro lado, se tal indexação aos resultados viesse a acontecer os gestores de topo teriam uma visão de curto prazo (tipo políticos) o que poderia colocar sérias dificuldades à sustentabilidade a médio/longo prazo das empresas. Mas dever-se-ia de alguma forma encontrar uma solução de boas práticas com a ponderação de diversos critérios para aferir o valor justo da remuneração dos Administradores. De outra forma, trata-se não só de uma profunda injustiça social, como de um roubo aos pequenos accionistas que são os detentores do capital social.
Uma das razões porque temos uma classe média tão fraca tem que ver precisamente com a disparidade de rendimentos. Alguma solução terá que ser encontrada.

Pedro Braz Teixeira disse...

A concorrência poderia justificar os elevados salários dos administradores. No entanto, vemos que não pode ser a concorrência a determinar esses salários. Só no sector bancário, veja-se a disparidade de remunerações, com o BCP com resultados medíocres a pagar muito mais do que bancos melhores. Para cúmulo, veja-se como o BCP foi buscar os mais mal pagos administradores do sector (CGD) para a sua administração.

Helena Garrido disse...

Caro Daniel,
Concordo inteiramente: indexar os salários aos resultados é uma má ideia e já o tem sido demonstrado. Tanto quanto me lembro há um debate - nos EUA - de os ligar a resultados a médio prazo.
Quanto à degradação dos rendimentos da classe média: começa a sre um problema muito sério. Não sei bem se as autoridades estão conscientes disso. Por enquanto tenho enfrentado a negação desse problema.

Helena Garrido disse...

Caro Pedro,
Pois, a concorrência pelos melhore sgestores poderia explicar a situação - ou seja a escassez como no caso do diamante... Mas não explica

José Neto disse...

É escandaloso que um gestor receba num mês o mesmo um trabalhador em 13,7 anos!

Quando Helena Garrido procurava apresentar argumentos na esfera da racionalidade económica para justificar tamanha discrepância, não conseguiu melhor que o recurso à metáfora da água e dos diamantes. Foi obrigada a recorrer à metáfora precisamente porque não tem argumentos no âmbito da racionalidade económica.

O termo de comparação para os administradores portugueses, quando pensam no seu ordenado, são os administradores alemães, independentemente da produtividade das empresas. Já quando “estudam” os salários dos trabalhadores têm que ter necessariamente em conta a “produtividade das empresas”... Como resultado Portugal continua a desenvolver uma repartição do rendimento terceiro-mundista que cada vez mais nos envergonhará no contexto da União Europeia.

Luc Boltanski explica que os seres humanos convivem bem com uma multiplicidade de justificações contraditórias entre si, que seleccionam em função da situação em que se encontram.
Mais um exemplo. O protesto contra o desrespeito dos Direitos Humanos na China também convive muito bem o crescente consumo dos produtos chineses... não dá jeito nenhum pensar na política quando vamos às compras, não é?