quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Tirem-mo do cima senão eu mato-o

O ministro das Finanças ameaçou os bancos de suspender a garantia de Estado caso não concedessem crédito às empresas.

O ministro das Finanças sabe que:
  • se suspendesse a concessão de garantias - que aparentemente os bancos privados, numa primeira fase, até se estavam a preparar para não usar - aumentava significativamente o risco do sistema financeiro português - ou seja, criava a possibilidade de se fechar o financiamento externo à banca portuguesa, o que seria a sua e nossa morte económica e financeira
  • que os bancos depois das asneiras que fizeram puseram não trancas mas ferrolhos nas portas
  • que os bancos estão a usar - por enquanto só a CGD - os financiamento para renovar linhas de crédito no exterior e não para se endividarem ainda mais. O que significa que não têm muita margem para conceder mais crédito
  • não têm ainda muita margem para conceder mais crédito porque, por causa do Reino Unido, um banco sólido aos olhos internacionais terá de ter um rácio de solvabilidade de 9% (Tier1). Abaixo disso é olhado com desconfiança. O crédito "come" capital e poucos querem aumentar o capital - os investidores olham com desconfiança para a banca, basta olhar para as suas cotações
  • as perspectivas para as empresas portuguesas são muito negativas e, como tal, é racional que a banca não queira conceder-lhes crédito. Quem nos dera que tivesse tido essa racionalidade no passado.

Não tendo instrumentos fáceis para fazer política económica o ministro das Finanças fez só política.

Mas há alguns instrumentos.

A única via de aumentar facilmente o crédito à economia é fazer aquilo a que se assiste nos Estados Unidos - apoios directos a empresas específicas ou crédito concedido pelo banco central.

  • Apoios a empresas específicas é possível neste momento - a Comissão Europeia tem orientações do Conselho para fechar os olhos e o limite máximo de ajudas foi aumentado para 500 mil euros.
  • Crédito através do banco central - é mais complicado, teria de se convencer o BCE - ou seja, os alemães - e mesmo assim esse financiamento poderia não chegar cá.

5 comentários:

Nuno Gaspar disse...

Alguém tem que explicar muito bem se os bancos portugueses estão em situação difícil mais porque emprestaram dinheiro a empresas e pessoas que não lhe pagam ou mais porque aplicaram/especularam o dinheiro dos depósitos dos clientes em activos que desvalorizaram.
Outra coisa que gostava de ver explicada é como é que os bancos registam lucros ou prejuízos nos seus balanços pela valorização ou desvalorização de activos sem os terem vendido. Parece-me óbvio que se há distribuição de dividendos de lucros virtuais (só são reais quando se efectua a venda) se procede a uma descapitalização inexorável do banco. Se calhar não é nada assim e, como sou leigo nesta matéria, estarei a fazer confusão. Gostava que alguém explicasse.

Anónimo disse...

Alguém devia explicar porque ainda chamam instituições aos Bancos. Eles portaram-se pior que qualquer merceeiro. Tem que ser muito bem controlados senão lá vai tudo para o maneta. Explique-me se faz favor..

Diogo disse...

Jon Stewart – A especulação de Wall Street, concerteza. A produção de Detroit, nem pensar!

Jon Stewart, do Daily Show, explica, com elevado sentido de humor, como o Congresso Americano emprestou, sem fazer perguntas, 700 mil milhões de dólares à indústria financeira, e se recusa a emprestar 25 mil milhões de dólares à indústria automóvel:


Jon Stewart: Há umas semanas, os presidentes da Ford, GM e Chrysler foram a Washington pedir 25 mil milhões de dólares no programa do Governo «Dinheiro para os Incompetentes». Mas não contavam apanhar o Senador Sherman.

Senador Sherman: Vou pedir aos três executivos que aqui estão para levantarem a mão, se vieram num vôo comercial. Que fique registado que nenhuma mão foi levantada. Em segundo lugar, peço-vos que levantem a mão se tencionam vender agora o vosso jacto privado, e voltarem para casa num vôo comercial. Que fique registado que nenhuma mão foi levantada.

(...)

Jon Stewart: Congresso, acho que sei o que se passa aqui. Deram 700 mil milhões de dólares à indústria financeira mas podem não dar à indústria automóvel 34 mil milhões porque não sabem exactamente o que a nossa indústria financeira faz, pois não? Portanto deram-lhes o dinheiro porque não querem parecer estúpidos.

O problema é o seguinte: a indústria automóvel tem um produto tangível e fácil de criticar. Os carros são mesmo assim. Até os maus são úteis. Mas vocês não vão salvar as pessoas que fabricam carros. Só vão salvar as pessoas que fazem empréstimos para comprar carros. Nem sequer empréstimos. As pessoas que vocês vão salvar fazem derivados de transferências de papel, que especulam sobre o futuro valor da vasta distribuição dos ditos empréstimos para a China.

Pronto, o modelo de negócio em Detroit é fraco. Sabemos que perdem 2 mil dólares por cada carro que vendem, mas Wall Street perdeu 7 biliões sem vender absolutamente nada! Pelo menos, quando Detroit perde dinheiro nós ganhamos carros!

VÍDEO (legendado em português)

commonsense disse...

Commonsense informa os seus amigos e outros blogs que o seu blog no sapo está bloqueado há vários dias e ninguém no próprio sapo o consegue desbloquear. Apesar de ser visível no endereço do costume, o login não funciona e, por isso, não é possível colocar novos posts nem administrar o blog.

Nesta circunstância e em desespero de causa, Commonsense migrou para o bloger com uma novo endereço: http://02commonsense.blogspot.com/

Convida todos para a sua nova casa, onde os receberá com todo o gosto.

VOX disse...

Caro Nuno Gaspar o seu comentário é muito oportuno, as reavaliações dos activos/passivos com determinadas maturidades podem ser contabilizadas segundo alguns critérios que o plano de contas do sector bancário estabelece, poderei citar alguns, nomeadamente: justo valor, custo amortizado, etc.. Pelo facto desses activos se manterem em carteira nas IC, eles são reavaliados diariamente, por isso, as perdas por imparidade representarem "custos" significativos para as IC (imagine uma empresa que tem um armazém cheio de mercadoria para vender e de repente essa mercadoria perde valor). Em parte, essas perdas resultam da turbulência dos mercados financeiros, a intermediação financeira por norma é assertiva, o risco associado a aplicações desmedidas em investimentos de alto risco não foi devidamente tido em consideração, face aos objectivos das IC em termos de remuneração dos accionistas. Evidentemente que o funcionamento dos mercados financeiros é um mundo complexo, a contabilização de certas aplicações ainda mais. A grande preocupação das autoridades passará por aí, ou seja, exterminar as contabilidades paralelas. Nota: Todas as IC a fazem, umas mais, outras menos, digo mais todas as empresas, contudo, o mercado real não está tão exposto a certos constrangimentos.