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terça-feira, 20 de março de 2012

Catroga, a EDP e as rendas

O caso das rendas no sector da energia promete continuar. Os estudos estão feitos, objectivo de corte nas rendas está definido – 299 milhões de euros anuais – e há várias soluções, da renegociação à alteração da legislação até ao lançamento de uma contribuição especial – assumindo-se o Estado como soberano.

Mas os grupos de pressão, que na energia têm a força que é proporcional aos seus lucros e rendas, preparam-se para criar um enorme ruído.

Eduardo Catroga veio hoje a publico fazer declarações sobre o tema.

Diz o ex-ministro das Finanças e também ex-líder da missão do PSD para a negociação do programa da troika e actual chairman da EDP:
“(...)no sector eléctrico, se eu fosse Governo, a minha recomendação era ‘vamos analisar todos os custos de interesse económico geral: a cogeração, aos pagamentos às Câmaras municipais, os subsídios às Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, os subsídios às renováveis, os chamados contratos de aquisição de energia… Isto tem de ser tudo analisado”.
Diz ainda que é preciso definir o que são “rendas excessivas”.

É espantoso o que se vai ouvindo sobre este tema:

1. Eduardo Catroga mistura apoios ao sector da produção de energia com modelos de pagamento de outros serviços que estão também na factura de electricidade. Claro que assim lança a confusão.

2. Os outros pagamentos – como os pagamentos às Câmaras-, não estão a ser discutidos neste momento e até podem sê-lo. Mas não deve misturar-se esse tema com os subsídios à produção de energia;

3. O que está em causa não são os apoios à produção de energia mas sim o “excesso” nos apoios, aquilo que os economistas designam como rendas (a margem que está acima daquela que as empresas obteriam em concorrência).

4. Essas rendas não precisam de ser de novo estimadas porque já foram estimadas com contributos separados da Cambridge Economic Policy Associates (que estimou o custo de capital associado aos CMEC ou seja, aquela que devia ser a remuneração adequada), da A T Kearney (que estimou os custos do capital para a produção em regime especial) e a secretaria de Estado da Energia.

5. O valor estimado é de 299 milhões de euros, 165 milhões dos quais atribuíveis aos CMEC que pertencem apenas à EDP e 113 milhões à Produção em Regime Especial onde está a cogeração e as eólicas. Os restantes 21 milhões são CAE (Contrato de Aquisição de Energia).

A estes factos soma-se o que se pode ler nos documentos do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro que Eduardo Catroga negociou e este Governo tem acompanhado e subscrito:

O diagnóstico da troika ainda na segunda avaliação:
» “Advances are well on track in the labour market, health care, the housing market, judicial reform, and telecommunications. By contrast, reforms in the energy, transport and service sectors are proceeding at a more uneven pace and in a number of cases deadlines in the Memorandum of Understanding (MoU) have been extended.”, de acordo com a avaliação da Comissão Europeia sobre o PAEF português com data de 21 de Dezembro de 2011, relative ainda à segunda avaliação.

Os compromissos assumidos pelo Governo, na sequência segunda avaliação:
(…)To that end, by end-January 2012 (structural benchmark), we will prepare a proposal which specifically corrects excessive rents in special (co-generation and renewables) and standard regimes (CMECs, PPAs, and power guarantee mechanism). This proposal will consider the merits of a full range of concrete measures, and will cover all sources of rents”. Que se pode ler na carta de intenções ainda da segunda avaliação – a que se conhece até agora - assinada pelo governador do Banco de Portugal e pelo Ministro das Finanças (ver página 58 e 59)

E as medidas agendadas:
» 5.15. Measures to set the national electricity system on a sustainable path leading to the elimination of the tariff debt (déficit tarifário) by 2020 and ensuring that it will stabilise by 2013 will be adopted. The latter deadline is subject to a review based on a government proposal which will also specify how excessive rents in the standard (CMECs, PPAs, and power guarantee mechanism) and special regimes (co-generation and renewables) will be corrected. This proposal will consider the merits of a full range of measures which will cover all sources of rents. [January 2012]”, de acordo com os resultados ainda da segunda avaliação no Memorando de Entendimento com as medidas e que é divulgado pelo FMI. (Pág. 108)

Ou seja, o governo português, já com Pedro Passos Coelho, assumiu que existiam rendas no sector da energia, atrasou-se na adopção das medidas já na segunda avaliação e continua obviamente atrasado.
Eduardo Catroga, actual chairman da EDP, sabe bem o que está no Memorando da troika. Liderou a missão do PSD que negociou o programa de ajuda a Portugal.

Os estudos estão feitos - ou o Governo não dá como correcto o estudo promovido pela secretaria de Estado da Energia, como parece ser o caso de Eduardo Catroga?
Tudo isto me leva a recordar o desabafo de um elemento da troika: não se pode dizer que os portugueses sejam preguiçosos, trabalham até bastante, mas nada acontece.

Não acontece quando não se quer que aconteça, acrescentaria eu.

E assim se vai deixando cair a promessa de Toda a Verdade, a promessa de reestruturar a economia, a promessa de distribuição dos sacrifícios, a promessa de tornar a economia mais competitiva.

domingo, 6 de março de 2011

Mexia e Ulrich à desgarrada

Na entrevista que o Expresso publicou esta semana com o presidente da EDP António Mexia há uma interessante troca de argumentos com o presidente do BPI Fernando Ulrich:

Pergunta: O presidente do BPI, Fernando Ulrich, diz que se quiserem que o sector bancário seja tão seguro como o eléctrico se calhar também se justificava no sector bancário medidas como preços garantidos (...). Como vê estes comentários que apontam para a existência de proteccionismo ao mercado eléctrico?
António Mexia: (...) Mas não vou falar de outros sectores que muitas vezes beneficiaram de políticas expansionistas, de fomento da política 'a cada pessoa a sua casa', etc que depois criaram alguns problemas com os quais vivemos hoje.

Mercado, pergunto eu, qual mercado?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

2008 - O ano do Cisne Negro

O ano em que o improvável aconteceu.
A crise nos mercados monetário e de capitais de 2007
transformou-se em crise bancária e de crédito em 2008
e antecipa a crise económica em 2009.
Reino Unido e Estados Unidos, os países mais liberais do mundo ocidental, fizeram a estreia na nacionalização bancos, ajudaram directamente empresas.
Os grandes gurus da finança estavam afinal a "nadar sem calções" como diz Warren Buffet
O pragmatismo assumiu o controlo da acção contra a violenta tempestade que caiu sobre o mundo.
E a visão do mundo económico mudou.


As escolhas do Visto da Economia do ano de 2008

NO MUNDO

A figura John Maynard Keynes


John Maynard Keynes visto por Duncan Grant em 1917

Keynes renasceu. Keynes foi em 2008 recortado e citado como nunca o tinha sido desde o início dos anos 70.
As suas receitas em que o Estado tem um papel fundamental soam como as mais ajustadas para recolocar em funcionamento a economia. A "mão invisível" de Adam Smith apenas parece funcionar nas ondas de prosperidade.
Nada disto significa a morte do capitalismo. Revela apenas - ou recorda - que o mercado tem falhas graves, que a "mão invisível" pode conduzir o mercado para estados de desequilíbrio e que, mais importante ainda, um enorme fosso entre a globalização dos mercados e a total ausência de globalização social, política e institucional que condicionam a actuação eficaz da "mão invisível"

O acontecimento A crise bancária

Bancos nacionalizados, bancos que desapareceram, bancos que faliram, o fim da banca de investimento, magos da finança transformados em demónios, o cidadão comum com medo de ver as suas parcas poupanças desaparecerem... de tudo um pouco se viu neste ano do improvável.


Em Portugal

A figura António Mexia

O presidente da EDP e afinal também da EDP Renováveis protagonizou mais um "Cisne Negro": No meio do caos financeiro conseguiu colocar em bolsa a EDP Renováveis com uma Oferta Inicial que foi um sucesso realizada nos poucos momentos de calma e algum entusiasmo - 19 a 30 de Maio - nos mercados bolsistas.

As acções foram vendidas a 8 euros e no primeiro dia em bolsa caíram para 7,65 euros. Nunca durante o ano voltaram a atingir os 8 euros. Nestes últimos dias do ano transaccionaram-se em torno dos 5 euros.

O acontecimento A nacionalização do BPN

Em Portugal dia 2 de Novembro aconteceu a primeira nacionalização desde 1975 - o BPN pertence agora ao Estado e está a ser gerido por uma equipa da Caixa Geral de Depósitos. O Governo recusou a proposta de Miguel Cadilhe de recuperação do banco de forma partilhada entre o Estado e os seus accionistas e a recuperação do banco pode custar cerca de mil milhões de euros.

O Governo teve ainda de intervir, através do Banco de Portugal, no Banco Privado Português, uma instituição de gestão de fortunas que viu o seu presidente João Rendeiro sair. João Rendeiro foi durante anos em Portugal uma referência no mundo financeiro. Seis bancos salvaram o BPP da falência: além dos cinco grandes, CGD, BCP, BES, BPI e Santander Totta, o grupo Caixa Agrícola.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

GeorgiaPipeline



Vale a pena ler a análise no blog Powerline por John Hinderaker.

De onde retiro o gráfico bastante elucidativo da importância estratégia da Geórgia para a Europa e para os estados fornecedores, como o Azerbeijão, conseguirem fornecer hidrocarbonetos ao Ocidente sem estarem nas mãos da Rússia.


domingo, 10 de agosto de 2008

Georgia, a guerra da Energia


Ameaçado o corredor sul de transporte de energia para a Europa em dois pipelines - um para gás, outro para crude - , que evita ao mesmo tempo a Rússia e o Irão. Iniciaram a sua actividade há pouco tempo.
- O Baku - Ceyhan que transporta petróleo para o porto da Turquia desde 2006, o primeiro a evitar a Rússia e operado pela BP
- O Baku-Erzurum que transporta gás desde 2007.
Putin já o tinha dito há algum tempo. A energia é um instrumento de afirmação da Rússia no mundo.
A "Guerra dos pipelines",
na BBC

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Para que serve investir em energia?

O primeiro-ministro está a debater o sector da energia no Parlamento, no habitual encontro quinzenal.
Traçou uma fotografia de um país a funcionar muito bem na energia e anunciou mais investimentos no sector.
Os investimentos serão um objectivo em si?
Porque continuamos a pagar a energia tão cara?
Porque continua a não existir concorrência nem na electricidade nem no gás? E muito pouca nos combustíveis?
Que estamos a ganhar nós simples consumidores com o investimento 'fashion' nas renováveis? Energia mais cara. Ah, sim, é verdade que há o ambiente. Mas não haverá formas de proteger o ambiente mais baratas?
Enfim... quando se perde a noção dos objectivos dos investimentos temos discursos assim. Assim como quando se quer dar uma imagem do país no sector da energia que pouco corresponde a uma vantajosa realidade quando cada um de nós olha para a conta da luz, do gás e dos combustíveis.
E quando se fala sobre estas questões mais terrenas somos invariavelmente acusados de demagogia...