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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O mundo está (mesmo) estranho

Portugal e a Alemanha são os países com a mais baixa taxa de inflação da zona euro - 1,4% em Novembro:
  • Para Portugal é mais um reflexo do rendimento a afastar-se da média europeia, a par do actual problema conjuntural. Num processo de convergência os preços deviam estar a subir mais em Portugal pelo conhecido efeito Balassa-Samuelson
  • Para a Alemanha e Portugal - e provavelmente a França (com 1,9%) - é um sério alerta para o risco de entrarmos num processo de deflação.
  • Como a medida da inflação usada (o índice de preços no consumidor) sobre-estima a inflação podemos já estar em queda de preços, o que não sendo deflação é uma das sementes do monstro

A taxa de juro de referência nos Estados Unidos está no máximo em 0,25% e já vimos aqui e aqui que há investidores dispostos a dar dinheiro ao Estado norte-americano ou mesmo a pagar para lhe conceder empréstimos.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O BCE... vale mais tarde



O BCE fez hoje um corte histórico nas suas taxas de juro de referência.

A partir de dia 10 o dinheiro passa a custar aos bancos 2,5% - operacções semanais de refinanciamento a uma taxa fixa desde 15 de Outubro e satisfazendo todos os pedidos de recursos.

O BCE percebeu finalmente que deve estar mais preocupado com o sistema financeiro que com a inflação.

É extraordinário o tempo que levou a entender a dimensão do problema. A Reserva Federal está a descer agressivamente a sua taxa de referência de 18 de Setembro de 2007, pouco mais de um mês (9 de Agosto) da primeira intervenção global para enfrentar os efeitos da crise dita "subprime".

O BCE, pelo contrário, resolveu aumentar a sua taxa de referência de 4% - onde se manteve - para 4,25% dia 3 de Julho de 2008 - sim já este ano. E porquê? Por causa da inflação que estava a subir para valores da ordem dos 3%.

E porque estava a subir a inflação? Por causa da subida dos preços do petróleo e dos cereais... Ou seja, não era inflação.

Por inacreditável que pareça o BCE comete nesta crise exactamente o mesmo erro que em 2000 e 2001 quando, apesar do crash bolsista e de todos os sinais de recessão nos EUA insistiu em subir as taxas de juro e teimosamente afirmou - na altura Wim Duisenberg - que a Zona Euro não seria afectada pela crise norte-americana.

A análise económica no BCE está a precisar de ser mais aberta e menos ortodoxa. De olhos postos na Fed.

Como consequência da sua ortodoxia, o efeito de alívio no orçaento das famílias e empresas, tão necessário já neste momento arrastar-se -á por todo o primeiro semestre.

É verdade que a política monetária tem nesta crise efeitos limitados e pode até em parte ser nefasta, mas poderia contribuir mais para a moderação da crise.

O que disse hoje Jean-Claude Trichet

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Os mercados gostaram... do apoio do Estado

A iniciativa dos Quinze no Acordo de Paris deste domingo agradou aos investidores e aos bancos:

Que fizeram os Governos?

  • Comprometem-se com dinheiro em cima da mesa a garantir a emissão de dívida por parte dos bancos - e não como inicialmente se disse, na sequência das declarações de alguns líderes europeus, garantias para as operações de mercado monetário interbancário
  • Comprometem-se com dinheiro também em cima da mesa e dos contribuintes a injectar dinheiro nos bancos

Muito há a dizer sobre o que se passou e está a passar. Por enquanto ainda estamos a apagar o fogo. Quando se começar a reconstruir é preciso repensar o sistema financeiro - como criar um mercado num sector onde as empresas/os bancos não podem falir?

Para já as emissões de dívida pública vão aumentar, a dívida que deveria ser dos bancos, isto é, dos seus accionistas, passa a ser do Estado, isto é, dos contribuintes.

Não me parece que se possam esperar efeitos inflacionistas desta actuação dos governos e bancos centrais. Houve uma brutal destruição de liquidez com a desvalorização de activos com os efeitos que já se começam a sentir na queda da actividade económica.

Portugal não poderia deixar de oferecer uma garantia, mesmo que a banca não precisasse. O elevado endividamento português intermediado pela banca recomendava toda a cautela. E se todos os outros países fizeram o mesmo, a banca portuguesa não poderia ter a desvantagem de não ter a possibilidade de ter a sua emissão de dívida com garantia de Estado.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A revolta das taxas de juro



O mecanismo de transmissão das taxas dos bancos centrais às taxas de mercado está seriamente danificado. Os bancos centrais baixaram as taxas de referência e as taxas de mercado - as Libor e Euribor - subiram alargando a sua distância das taxas de referência como se pode ver nos gráficos para a Área do Euro e para os Estados Unidos.
A política monetária não está a funcionar. A política orçamental está teoricamente limitada pelo Pacto de Estabilidade e não tem os melhores instrumentos para combater esta crise.
Começam a surgir as medidas de excepção:
- O membro da Comissão Executiva do BCE Lorenzo Bini Smaghi defendeu em entrevista ao Il Sole 24 Ore a fixação administrativa de uma taxa de juro para o crédito às famílias, uma vez que a Euribor deixou de companhar a taxa do BCE.
As nacionalizações parciais de bancos a que temos assistido começam a parecer naturais face a actuações que se perspectivam de administração de mercados.
A rapidez com que a organização da economia está a mudar...


quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Um receio confirmado - juros de mercado não caem

Como ontem receei, a descida das taxas de juro por parte dos bancos centrais não foi acompanhada pela redução das taxas de mercado - pelo contrário, as taxas subiram, as Euribor e as Libor.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mercados em fase única

"As turbulências actuais nas principais praças financeiras não têm precedentes no período do pós-guerra".
Afirma o Banco Internacional de Pagamentos (BIS) no relatório anual.

domingo, 16 de março de 2008

O Bear... e o pouco mercado

A Reserva Federal abriu uma caixa de Pandora ao aprovar a "salvação" do Bear Stearns, uma instituição não bancária. Obviamente que agora muitos outros querem e um grupo de financiadores está a questionar a legalidade da iniciativa da Fed uma vez que o Bear é, na prática, uma sociedade corretora.
O apoio ao Bear foi aprovado na sexta-feira de manhã correspondendo a um empréstimo a 28 dias concretizado pela Fed através da JP Morgan que hoje começava a ser apresentada como potencial compradora da corretora com 85 anos de idade que, como dizem os analistas, resistiu à Grande Depressão e à segunda Guerra Mundial mas não aguentou a sub-prime.
A intervenção da Fed está a ser muito criticada mas o secretário de Estado do Tesouro já veio em sua defesa, considerando que a actuação foi correcta. O argumento é: receio de que as dificuldades do Bear se contagiassem a outras instituições.

Vai ser preciso reflectir sobre o que é afinal o mercado... mais para uns que para outros.

terça-feira, 11 de março de 2008

Nova onda 'subprime'

Chegou a nova onda da crise desencadeada pela falta de juízo na concessão d ecrédito nso Estados Unidos. Tal como muitos analistas preconizaram, inclusivamente neste espaço - F., por exemplo.

A Reserva Federal anunciou hoje a colocação de 200 mil milhões de dólares aceitando como contrapartida títulos de dívida hipotecária privada com 'rating' AAA e uma acção coordenada com os bancos centrais europeu e do Canadá no montante de 45 mil milhões de dólares, como se pode ler em síntese na Bloomberg.

Este novo 'tsunami' foi aparentemente desencadeado pela pressão dos bancos norte-americanos junto de credores como 'hedge fund' para amortizarem os seus créditos.

A perspectiva de que se iria assistir a réplicas da crise iniciada em Agosto do ano passado baseou-se no facto de muitas famílias norte-americanas verem o seu período de carência terminado nos primeiros meses deste ano. Não consigo ainda perceber se isso se está, de facto a verificar.

A reacção dos mercados à iniciativa da Fed foi obviamente de festa.
O fim desta crise está, parece, ainda longe.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A subprime para durar

A frase:
"A actual tempestade financeira é séria e duradoura"
Henry Paulson, secretário de Estado do Tesouro, EUA
Assim o disse no encontro do Grupo dos Sete no Japão onde se rejeitou a aplicação de um plano orçamental global proposto pelo director-geral do FMI.
Numa altura em que vivemos, dia 9 de Fevereiro, seis meses de crise bancária com epicentro no mercado de crédito hipotecário de alto risco nos Estados Unidos.
9 de Agosto foi o dia do reconhecimento público das autoridades monetárias, com intervenções nos mercados monetários por parte do BCE, Reserva Federal e outros bancos centrais.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Bancos centrais e EUA

O meu artigo desta semana no Jornal de Negócios "Os bancos centrais e a potência imperial endividada".

Estou de facto muito pessimista. E posso estar errada, como alerta um dos comentários que se pode ali ler. Errei nas perspectivas que tinha sobre o BCP, nomeadamente quando defendi Jardim Gonçalves.

Confesso que ainda hoje tenho dificuldade em racionalizar o que já se sabe sobre o 'caso BCP'. Como foi possível àquelas pessoas envolverem-se numa teia de irregularidades, conscientes do que estavam a fazer?

Quanto à conjuntura... Acredito que é uma fase, que regressará o ciclo de crescimento. Só me parece que esta fase pode impor algumas rupturas. Poderei estar errada. Mas, neste momento, não me parece. A banca terá de ser mais regulada. Os Estados Unidos podem manter-se como potência imperial mas poderão ter de reduzir a sua dívida.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

George Soros

Vale a pena ler George Soros, no Público. A propósito da crise que vivemos.
Link indisponível, infelizmente.

Actualizando ...
Aqui está o artigo de Soros encontrado graças a José Maria Pimentel.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Bancos centrais no banco... dos réus

Joseph Stiglitz, Nobel e professor na Universidade de Columbia: os bancos centrais perderam o foco e o controlo da gestão da economia. Focaram-se demasiado na inflação, fizeram más avaliações e não anteciparam que a bolha imobiliária nos EUA ia rebentar

George Soros: não há dúvida que os bancos centrais perderam o controlo da situação. Não conseguiram compreender as novas técnicas financeiras desenvolvidas pelas instituições financeiras para disseminar o risco.

Afirmações no World Economic Forum deste ano durante o debate da CNBC com o sugestivo título "Who's in Charge".

A defesa dos bancos centrais ficou a cargo de John Snow, ex-secretário de Estado do Tesouro norte-americano: Durante os últimos 20 anos estas instituições tiveram um desempenho superior a outras. É fácil ver uma bolha pelo espelho retrovisor.

Uma relação de forças ligeiramente superior aos resultados da moção que foi votada entre os economistas, empresários e investidores que estão em Davos. 59% votaram contra os bancos centrais.