sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Emprego, indicador avançado da retoma?

O Ministério das Finanças pronuncia-se sobre os dados de evolução do PIB divulgados pelo INE nestes termos:
 "A economia portuguesa cresceu 0,8 por cento face ao segundo trimestre de 2015. Uma evolução inferior à que está subjacente ao Orçamento do Estado de 2016. A economia está assim a levar mais tempo a acelerar o ritmo de crescimento".

Pensei que finalmente se ia reconhecer que a economia está a travar e é preciso reorientar a política económica (em tempos de incerteza e restrição financeira desculpem lá mas continuo convencida que a ferramenta de actuação mais importante é a conquista da confiança de quem investe).

Mas a seguir leio:
"Contudo, nos próximos meses, o crescimento económico deverá ser sustentado nos sinais de franca recuperação do mercado de trabalho".

Os números do emprego relativos ao primeiro trimestre foram de facto muito positivos como se pode ver aqui e ler o que escrevi sobre isso aqui. Mas são do segundo trimestre de 2016 e reflectem o passado, não antecipam o futuro.

Todos os estudos em todos os países provam que o mercado de trabalho reage com atraso em relação à recuperação da economia. Em Portugal as estimativas são de seis a nove meses. É aliás por causa disso que os cidadãos em geral não compreendem que os economistas falem em retoma muito antes de eles a sentirem no emprego, seu ou dos seus amigos e familiares. É aliás por causa disso que, partidos que estão no poder, quando a economia já está a sair da crise, perdem eleições.

O emprego sempre foi um indicador "atrasado" da recuperação económica e nunca um indicador "avançado".

Penso que percebo a teoria subjacente a este comunicado: mais emprego vai gerar mais consumo e com isso o PIB vai subir.
É outra linha da teoria: recuperação dos salários da função pública e redução do IRS vão aumentar o poder de compra e por sua vez o consumo e por sua vez o PIB. O que não aconteceu. Não tendo efeitos pelo preço (subida do poder de compra), espera-se agora que tenha efeito pela quantidade (subida do número de postos de trabalho).

Não conheço nenhuma investigação que prove que o emprego é um indicador avançado do crescimento económico tendo por base este ou outro raciocínio.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

A revolta dos accionistas. Atenção gestores

É o fim de uma era? 
Os accionistas estão a revoltar-se contra os excessos de bónus e prémios dos gestores.
Já é significativa a lista das empresas que mereceram um sinal vermelho dos accionistas, em votações não vinculativas mas mesmo assim importantes pelo sinal que dão de mudança dos tempos, de novas preocupações. 

Deutsche Bank e Goldman Sachs foram os mais recentes a receberem a censura dos accionistas. Mas já aconteceu com a Renault (com o Estado francês a liderar a revolta), o Citigroup e a BP.

Entre os accionistas de peso que já lançou uma campanha contra os excessos nos prémios, bónus e afins dos gestores está o fundo soberano da Noruega.

Eis o artigo do FT que faz uma boa síntese do tema: 


O mundo está a mudar para melhor? As preocupações com a desigualdade justificam a revolta. Os mais cínicos dirão que finalmente os accionistas começam a sentir na pele que ganham menos que os gestores - as empresa stêm prejuízos e desvalorizam em bolsa enquanto os gestores continuam a propor-se prémios. Seja qual for o motivo, o resultado que se promete é positivo.

(Sim estou de volta - a tentar pelo menos - ao Visto da Economia)

domingo, 28 de setembro de 2014

Ferramentas para jornalistas - a matemática que é preciso

Para os meus alunos de Jornalismo Económico na Universidade Lúsófona aqui ficam alguns links muito úteis - também para mim :-) e para nós.


Media Reporting - Math for journalists - Gosto especialmente da frase:
"No number has any meaning unless it is compared with something else."

Journalism and math
 

sábado, 27 de julho de 2013

A reforma IRC ou o poder sobre o poder?

O tempo é de férias. Mas é impossível não pensar. Especialmente quando nos confrontamos com iniciativas importantes para todos nós, portugueses, em tempo de pré-férias. Falo da proposta de reforma de IRC que aponta para uma redução do imposto sobre os lucros das empresas de 31,5% para 29,5% (incluindo a derrama estadual e municipal).

Teoricamente, menos tributação dos lucros (e dos rendimentos de capital em geral) significa mais investimento, quer em empresas já existentes como em novos projectos. São, teoricamente, ambientes mais amigos do investimento que cria emprego. Teoricamente, sim. Porque na prática pode não ser assim:

« A realidade tem demonstrado que só há um efeito significativo no investimento e sobretudo na atracção do investimento estrangeiro quando a descida das taxas é significativa. Descer a taxa marginalmente serve para muito pouco ou nada;
« A situação financeira do Estado não permite uma redução significativa imediata das taxas de IRC. Para que serve então essa descida mínima - pressuponho que as reduções de impostos têm como objectivo aumentar o bem estar global da sociedade e não melhorar a situação apenas de um grupo limitado enquanto os outros ficam na mesma ou pioram;
« Uma descida marginal da taxa de IRC que não não tem um efeito de aumento global do bem estar da sociedade, quando se estão a cortar pensões de reforma e salários, se está a reduzir o Estado social na saúde e na previdência e a aumentar impostos sobre os rendimentos do trabalho e sobre o consumo parece ser uma escolha que favorece grupos com poder junto do poder. E estes são quadros que manifestamente não garantem o desenvolvimento, para dizer o mínimo.

Dois últimos pontos:
« Baixas taxas de imposto não garantem iniciativas de investimento sustentáveis a longo prazo, como aprendemos dolorosamente com o caso da Irlanda;
« Entrar num processo concorrencial de atracção de investimento através de taxas de imposto é equivalente a processos de desvalorização cambial competitiva: todos ficam pior ou na mesma. Ou será que se pensa que os países com que queremos concorrer (Polónia e República Checa, referidos no documento da proposta) com a redução do IRC nada vão fazer?

A simplificação e a estabilidade do regime fiscal é mais urgente do que as medidas de redução da carga fiscal sobre as empresas, quando ainda nada se pode fazer pelos cidadãos em geral, dos mais desfavorecidos aos que pertencem a uma classe média em risco de empobrecimento.

Quando se está a reduzir tão significativamente os rendimentos presentes e futuros, em dinheiro e em espécie, dos cidadãos em geral, aumentar o rendimento de alguns exige uma justificação que demonstre, sem equívocos, os benefícios que daí se retiram para toda a sociedade. Ou seremos de novo uma "sociedade extractiva", aquela que faz "falhar as nações".  Já basta o que se tem visto (e compreendido como o mal menor) com as PPP rodoviárias, as rendas da energia, o BPN e os 'swap'.