quarta-feira, 10 de novembro de 2010

E ainda sssim os juros subiram

A última emissão de Obrigações do Tesouro foi colocada. O Estado conseguiu o montante que desejava e a taxa de juro foi alta mas acabou por ficar abaixo das piores previsões.

Temos de parar de pensar nas culpas que Angela Merkel tem nesta subida dos juros. Temos de conseguir que Angela Merkel não consiga influenciar, com as suas palavras, as nossas taxas de juro. E isso está nas nossas mãos, nas mãos das lideranças políticas do país e em cada um de nós.
Vale a pena ler o que disse o ministro das Finanças.
Tudo se resume a garantir que a proposta do Orçamento do estado entra em vigor.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Não consegues crescer? Rouba o teu vizinho...

... especialmente aquele que deixa as portas escancaradas, a Zona Euro

Eis a evolução do euro face ao dólar, a subir acentuadamente desde que a Reserva Federal anunciou que vai inundar a economia dos Estados Unidos com 900 mil milhões de dólares.

Fonte: BCE
De 28 de Outubro até dia 4 de Novembro o euro subiu 2,7%.
A Alemanha, o motor da economia europeia que cresce com exportações, tem a sua retoma sob ameaça e, por essa, via, transforma numa miragem (ainda maior, se é que isso é possível), o crescimento marginal de 0,2% da economia portuguesa por via das exportações.

Os Estados Unidos usam mais uma vez todos os remédios que têm à mão para reanimar a sua economia.
Na Zona Euro afirma-se que do outro lado do Atlântico não se vai entrar numa política de dólar fraco.

Pouco importa também. Porque se todos fizessem o que os Estados Unidos estão a fazer todos perdiam ainda mais. Se todos os vizinhos se roubarem uns aos outros ninguém fica melhor.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Reserva Federal e Euro - que diferenças

As máquinas de imprimir dinheiro vão ligar-se em força na América.
Na América não se teoriza, faz-se.
Numa acção esperada mas surpreendente pela dimensão, a Reserva Federal norte-americana anunciou que vai comprar mais 600 mil milhões de dólares de títulos de dívida pública e vai ainda reinvestir 250 e 300 mil milhões de euros.
Claro que o euro reforçou de imediato a sua subida - um dólar está a custar 1,41 euros - e as bolsas norte-americanas reagiram em alta.
Ben Bernanke também conhecido por "helicopter Ben" pelos remédios que defendeu para uma crise como a japonesa - injecção de dinheiro em grandes quantidades - dá o tudo por tudo para reanimar a economia norte-americana.

Contrariamente ao que aconteceu no passado, a economia norte-americana não dá sinais de ter saído sustentadamente da crise. E mais grave ainda está com sintomas de ruptura na relação entre crescimento e emprego: em geral o emprego aumentava, após uma crise, mais rapidamente que na Europa - tal como o desemprego, que também subia mais depressa. Nesta crise o mercado de trabalho norte-americano não está a revelar a mesma flexibilidade.

Fed vai comprar até 900 mil milhões de dólares em activos

Fed to Buy Extra $600 Billion of Treasuries to Boost Growth

Na Zona Euro continuamos focados nos aspectos financeiros.
Hoje as taxas de juro da dívida pública portuguesa e irlandesa voltaram a subir, com os irlandeses a registarem um agravamento superior ao dos portugueses - a diferença entre os dois voltou a alargar-se. Porquê? A razão que está a ser atribuída pelos analistas de dívida pública é a mesma : o fundo permanente que só entrará em vigor em 2013 e que ainda exige a revisão do Tratado de Lisboa. Mas sobre o qual a Alemanha tem falado de mais, acusam alguns líderes políticos, como Zapatero.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Portugal, Grécia e Irlanda no olho do furacão

Quando esperávamos que os mercados nos dessem o prémio da austeridade eis que somos castigados de novo. O regresso da subida das taxas de juro, apesar da aprovação já garantida do Orçamento do Estado, só nos deixa uma consolação - antes era a Grécia que estava pior que nós, agora é a Irlanda. A Espanha já conseguiu sair do radar das preocupações dos investidores.

A razão deste novo abalo está, diz quem investe, na decisão da Cimeira Europeia do fim da semana passada de criar um fundo permanente de ajuda aos países em dificuldades no euro mas com um mecanismo que se traduza também em perdas para os investidores. Consequência: nunca mais as taxas de juro voltarão a ser as mesmas.

O novo fundo só entrará em vigor daqui a três anos mas os devedores de maior risco já estão a ser castigados.

Vale a pena ler o que já disse Angela Merkel e as reacções que já teve sobre este assunto:



European officials including Spanish Prime Minister Jose Luis Rodriguez Zapatero are concerned that announcing bond investors will have to shoulder a part of any future bailout will spook traders at a time when Ireland and Portugal are struggling to cut their budget deficits.
(...)
In subsequent remarks today in Brussels, Merkel dismissed the concerns that planning now to make investors help pay for any future debt crisis may drive up the borrowing costs of nations with high budget deficits. She said a distinction exists between the temporary and future mechanisms.


Mas parece que não está a haver distinção entre as actuais regras e as que vão ser criadas e que exigem até uma revisão do Tratado de Lisboa. E assim sobem os juros de Portugal, da Irlanda e da Grécia.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

E Sócrates foi Sócrates

Negociações de cinco dias entre Governo e PSD colapsaram: a explicação de Eduardo Catroga e a explicação do ministro das Finanças.

Presidente da República convoca Conselho de Estado

Como se previa, José Sócrates caiu na tentação da sua convicção de ter Pedro Passos Coelho em xeque-mate e não viabilizou nenhum acordo com o PSD.

Não sei o que vai fazer Pedro Passos Coelho mas à medida que vou conhecendo o Orçamento, feito com raiva e total falta de cuidado, e que vou percebendo o que se tem passado nas contas públicas nos últimos anos e no banquete em que se transformou o dinheiro dos contribuintes para alguns grupos, cresce em mim a dúvida se não seria melhor inviabilizar o Orçamento.

O pântano de que se queixou um dia António Guterres já é muito mais que isso. Lamentavelmente para a nossa auto-estima, uma intervenção externa poderia limpar um pouco essas águas cada vez mais turvas em que nos movemos e que escondem as vantagens que alguns retiram de comerem cada vez mais e mais à mesa do Orçamento, do dinheiro que todos pagamos para o Estado. Enquanto se vai estrangulando a economia.

É muito triste que tenhamos chegado até aqui. É com tristeza que escrevo tudo isto. Mas olhar para o futuro com esperança exige uma limpeza que seja efectivamente geral.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Andamos a brincar com coisas sérias

O entretenimento em torno do Orçamento do Estado para 2011 é uma brincadeira que nos pode sair bastante cara.

Amanhã vamos entrar no quarto dia de negociações entre o Governo, num grupo liderado pelo ministro das Finanças, e o PSD, com Eduardo Catroga à frente. Do ponto de vista estritamente político, as negociações prometem não dar nada.

Porque vai um primeiro-ministro com o perfil de José Sócrates aceitar, por proposta do PSD, aumentar a taxa do IVA apenas em 1%, desistir dos limites nas deduções  à colecta e alterar a sua decisão de colocar em taxa agravada produtos como o leite com chocolate?

Do ponto de vista financeiro podemos estar a falar de valores ridículos, mas na versão partidária a história pode ser outra: o PSD sairia como vencedor, poderia dizer que conseguiu moderar a subida dos impostos.
Terá José Sócrates essa generosidade de salvar o PSD?
E será o PSD capaz de aguentar a culpa e os efeitos de ter desencadeado a entrada do FMI em Portugal com um chumbo do Orçamento?
À primeira vista, José Sócrates tem a faca e o queijo na mão. O PSD está em xeque-mate e não parece conseguir sair dessa posição.

Nestas contas partidárias ninguém parece ter a noção de que se está a brincar com um fogo muito perigoso.
Espanha, Grécia e Irlanda já tomaram medidas duríssimas.
Se não fizermos o mesmo rapidamente a situação financeira vai precipitar-se. Mesmo aprovando o Orçamento ninguém é capaz de garantir que o problema financeiro está resolvido e que o FMI está colocado de parte.

Se nada fizermos por nós, os riscos são enormes - de uma dimensão tal que até se recomenda que não se imagine.

Num mundo em que os agentes políticos pensassem mais no País do que no gozo de ser vencedor de tácticas político-partidárias e na conquista de votos, o Orçamento já estava há muito viabilizado. 

O PSD seguiu uma péssima táctica. José Sócrates foi muito hábil em encostar o PSD à parede. Muito bem, aplausos para todos. Agora vamos às coisas sérias e adoptem as medidas que o País precisa, 

Negociações PS e PSD - em busca de 450 milhões?


As negociações entre o PSD e o Governo, que se vão reiniciar às cinco da tarde, procuram aparentemente encontrar, no mínimo, 450 milhões de euros se o Governo aceitar a proposta de aumentar apenas 1 ponto percentual na taxa do IVA - para 22% - e pagar os limites em deduções com títulos de dívida pública.

A proposta do PSD de corte de 5% nos serviços intermédios não anulam as perdas de receita das alterações dos impostos.

Os 450 milhões de euros representam uns meros 0,3% do PIB implícito no Orçamento de 2011 (175.977,4). Mas pode existir pouca margem na redução do défice público de 7,3% do PIB deste ano para os 4,6% em 2011 com o rácio calculado com um crescimento do PIB de 0,2%.

Depois há a margem política. Como podem os dois partidos surgir como vencedores?