domingo, 26 de abril de 2009

Freeport e jornalismo II

Nuno Ramos de Almeida apresentou aqui contra-argumentos aos meus argumentos contra a divulgação jornalística do vídeo em que Charles Smith afirma ter entregue dinheiro a José Sócrates para aprovar o projecto Freeport. JP Santos fez igualmente alguns reparos.

Porque o tema não é simples e merece, na minha opinião, reflexão do ponto de vista jornalístico regresso a ele:

1. A existência do vídeo é um facto jornalístico - os jornalistas conseguiram obtê-lo, sabem que existe;

2. O conteúdo do vídeo não é - só por si - um facto jornalístico entendido como passível de ser divulgado em bruto - e parece-me que é aqui que discordo de Nuno Ramos de Almeida (se não é assim peço desde já as minhas desculpas); E porquê?

=»a) Charles Smith está ser questionado sobre dinheiro que desapareceu o que levanta desde logo a dúvida sobre a veracidade do que diz - e o jornalista tem de se preocupar com veracidade do que transmite como notícia;
=» b) A credibilidade de uma fonte é validada pelo jornalista e não pelo curriculum da fonte - e aí discordo de Nuno Ramos de Almeida - o facto de ter conseguido a aprovação do Freeport pode torná-lo credível para conseguir a aprovação de projectos difíceis mas não credível como fonte de um jornalista;
=» c) A situação de fragilidade em que se encontrava a fonte Charles Smith - estava a ser questionado - fragiliza a sua credibilidade como fonte. Uma das regras que devemos seguir é avaliar o grau de liberdade da fonte em que baseamos a informação que transmitimos;
=» d) Qualquer pessoa pode gravar um dvd em que se acusa uma terceira pessoa não presente de ser corrupta tendo como objectivo colocar esse vídeo nos órgãos de comunicação social se a regra passar a ser a não validação da informação ali contida. É um argumento fraco - no sentido em que não podemos deixar de divulgar informação por causa do risco de manipulação que todos os dias enfrentamos mas deve também ser considerado;

3. O facto de todos os protagonistas e implicados no vídeo terem sido convidados a dar a sua opinião - tendo recusado - não me parece ser suficiente para a decisão de divulgar o conteúdo do dvd. A regra de ouvir as partes envolvidas numa notícia é necessária mas não suficiente para que um facto se transforme em facto jornalístico. Muitas vezes é preciso ir mais longe como complementar com outras fontes;

4. Ser jornalista não é ser polícia nem juiz exactamente porque a aproximação aos factos jornalísticos - ou verdade jornalística - é muito diferente da aproximação à verdade da investigação policial e do julgamento. Mas tal como a polícia e o juiz, também nós jornalistas temos regras. E uma delas é a validação da informação que transmitimos confrontando fontes independentes e informação adicional que nos dê garantias de que a informação que estamos a transmitir é o mais próxima possível da verdade jornalística - não policial nem jurídica.

Há nesta análise uma falha que detecto: Tendo condições para divulgar a existência do vídeo como justifico perante o público o facto de não divulgar o seu conteúdo? Não é fácil encontrar uma resposta. Mas teria de a encontrar - a informação não estava validada.

Em todo este caso é óbvio que o Primeiro-Ministro teve e tem tido uma atitude lamentável, como o demonstrou na entrevista que deu à RTP - quer no que disse como na relação injustificadamente agressiva e até imprópria com Judite de Sousa e José Alberto de Carvalho. Irracional ainda porque as perguntas feitas eram inevitáveis.

Como disseram José Eduardo Moniz e Vasco Pulido Valente, tem faltado a José Sócrates a atitude de Estado que se exige a quem é Primeiro-Ministro e que tiveram, por exemplo, Cavaco Silva e Mário Soares e de forma ainda mais violenta Ferro Rodrigues quando foram igualmente alvo de violentas criticas e ataques.

A qualidade combativa de José Sócrates confunde-se por vezes com agressividade gratuita. Nem se pode dizer que a sua forma de combater seja essa. Quando combate as criticas de Cavaco Silva ou Manuel Alegre é cauteloso. Quando é questionado pelos jornalistas permite-se a um desrespeito e a uma agressividade que justificam as dúvidas que hoje se levantam quanto ao respeito que tem pela liberdade de imprensa.

Dito isto, considero que vale sempre a pena pensarmos, nós jornalistas, se estamos a fazer a correcta aproximação à verdade.

domingo, 19 de abril de 2009

Freeport e jornalismo

Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses
1. (...)Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso.(...)

Não há dúvida que exibir o vídeo que temos visto na TVI não respeita os princípios básicos do jornalismo:
- os factos ali relatados não são comprovados pelo jornalista;

- podiam não ser comprovados mas poderíamos estar perante fontes credíveis, o que não é o caso.

- os "acusadores" de José Sócrates, designadamente Charles Smith, não podem ser considerados 'fontes credíveis'. Smith estava a justificar o desaparecimento de elevadas quantias de dinheiro.

- na critica à informação, que qualquer jornalista deve fazer, levanta-se a dúvida sobre as razões que levaram Smith a acusar José Sócrates - quem o está a interrogar não o pode confirmar, não pode ir perguntar ao primeiro-ministro de Portugal se recebeu dinheiro.


Não estamos definitivamente a fazer jornalismo.
Seja qual for o Código de Boas Práticas que se queira seguir.
Aqui podem ler-se alguns.

O jornalista não é um mero transportador de informação. É hoje, mais do que nunca, um validador da informação. E essa operação não foi feita pela TVI.

Além dos problemas obviamente graves de se estar relatar informação não rigorosa, elevamos, com esta prática, o risco de manipulação dos jornalistas. Um qualquer vídeo poder ser gravado com uma conversa entre duas pessoas que acusam uma terceira não presente, para o entregarem a um jornalista que o emite sem fazer qualquer trabalho adicional.

O que se está a passar é grave.

As notícias em síntese - nos últimos tempos

"O PIB foi revisto em baixa, o desemprego revisto em alta e Freeport"

Síntese feita por quem tem estado fora do País a ver as notícias de fora.

domingo, 29 de março de 2009

Espanha estreia-se a intervir na banca

Espanha faz a sua primeira intervenção no sector bancário numa caixa de poupança.

A Caja Castillha La Mancha recebeu um aval de 9 mil milhões de euros para que o Banco de Espanha lhe possa emprestar dinheiro.
Razões das dificuldades: exposição e risco excessivo no sector imobiliário e expansão para fora da área de origem.

O património da CCM é superior às suas responsabilidades. Mais uma vez há um problema liquidez.

O comunicado do Banco de Espanha.
O comunicado do Governo espanhol.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A máquina de imprimir dinheiro a funcionar

A Reserva Federal vai comprar 1250 mil milhões de dólares em títulos de dívida pública dos Estados Unidos e títulos hipotecários. A máquina de imprimir dinheiro privada avariou-se. Entra em funcionamento a máquina de imprimir dinheiro do Estado.

Os Estados Unidos usam todas as armas para reanimar a economia.

Aqui no FT um extraordinário e educativo gráfico sobre a expansão quantitativa da moeda (quantitative easing)

A tentação do proteccionismo

Ainda o discurso a favor da mão-de-obra nacional e a tentação proteccionista numa reflexão sobre os efeitos grátis nos vizinhos de políticas orçamentais expansionistas:

"The protectionist temptation: Lessons from the Great Depression for
today
Barry Eichengreen Douglas Irwin

The problem, to the contrary, is that the country applying the stimulus
worries that benefits will spill out to its free-riding neighbours. Fiscal
stimulus is not costless – it means incurring public debt that will have to be
serviced by the children and grandchildren of the citizens of the country
initiating the policy. Insofar as more spending includes more spending on
imports, there is the temptation for that country to resort to
“Buy America”
provisions
and their foreign equivalents. The protectionist danger
is still there, in other words but, insofar as the policy response to this slump
is fiscal rather than just monetary, it is the active country, not the passive
one, that is subject to the temptation."


Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido e França são os países onde essa tentação poderá ser maior.