sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Dívida pública ou caos

Endividar o Estado para tirar a economia da crise é um erro tão ou mais grave que o endividamento das empresas, dos bancos e das famílias, o boom de crédito privado a que assistimos na última década?

Gabriel Silva do Blasfémias apoia o ministro das Finanças alemão Peer Steinbruck que pensa que sim: os Estados estão a cometer o erro do endividamento que esteve na origem desta crise.

O endividamento do Estado não coloca os mesmos problemas que o endividamento do sector privado:
  • É mais fácil de corrigir - com inflação i.e redução do poder de compra do país ou aumento de impostos i.e poupança forçada das famílias e empresas.

Se o problema hoje do mundo ocidental fosse o excesso de endividamento do Estado - afinal o agente económico menos endividado apesar de andarmos há décadas a falar do défice público - estaríamos muito mais confortáveis.

  • Do ponto de vista financeiro, a presença do Estado no mercado de crédito é, neste momento, um dos únicos instrumentos para manter esse mercado a funcionar e, como tal, a actividade económica.

As economias actuais - empresas e famílias - não funcionam sem crédito. E isso não é negativo, pelo contrário, permite colocar aforradores e investidores - procura e oferta de financiamento - facilmente em contacto. Viabilizaram-se assim muitos projectos/ideias que de outra forma nunca existiriam (este espaço é um deles). As famílias anteciparam consumos em função do seu rendimento permanente ( a função consumo dependente do rendimento permanente e não do disponível, uma ideia de Milton Friedman). O problema não foi o crédito mas sim uma deficiente avaliação dos riscos feita pelo financiador, os bancos.

  • Do ponto de vista económico, a ausência do Estado neste momento como motor financeiro da economia (endividando-se) lançaria os países para o colapso social e político. Viveríamos falências e desemprego em níveis inimagináveis.

Obviamente que as escolhas dependem da curva de preferências de cada um.

Eu prefiro ter um longo prazo com mais inflação - neste momento a ameaça parece ser de deflação, pelo menos nos Estados Unidos - que um curto prazo de caos social e político que ninguém consegue prever como acabaria.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O milionário alemão...e a VW

Em finais de Outubro vários investidores perderam milhões a jogar na descida da VW. Outros, obviamente ganharam. Nunca se soube bem quem...

Eis que agora s esabe que um multimilionário alemão com mais de 70 anos e membro de uma das famílias mais ricas do país, com negócios na indústria farmaceutica e materiais de construção perdeu a fortuna familiar nesse jogo.



Neste momento está a ameaçar os bancos de falência. Os bancos dizem que ele não está em condições d efazer ameaças. Precisa de quase mil milhões de euros. E está a tentar "entrar" no grupo dos que "são demasiado grandes para falir".

Uma história que expõe dramaticamente como se distorceu o mercado de capitais.
Muitas empresas têm hoje prejuízos ou lucros reduzidos porque usaram as suas margens (o Ebitda) para aplicar na bolsa. Com todos a tentar comprar barato e vender caro e poucos a investir em novos negócios ... o caminho estava traçado.

Além dos aspectos de supervisão bancária vale a pena reflectir sobre os efeitos perversos que um mercado financeiro desregulado teve. Jogou contra a criação de valor.

A ler a história de Adolf aqui e aqui
E quem é Adolf Merckle

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A recessão à porta

A economia portuguesa está a crescer cada vez menos desde o quarto trimestre de 2007.

Apesar disso, o Governo insistiu no discurso do "vai tudo bem". E sem nunca dizer que iríamos escapar da recessão foi dizendo, a cada momento e agarrando-se à parte meio cheia do copo, "escapámos à recessão" - assim foi quando o INE divulgou a sua estimativa rápida para o PIB.

Hoje o INE divulgou os números com mais informação e regista-se uma quebra da produção no terceiro trimestre face ao segundo. É marginal. Mas os números que determinaram essa queda antecipam o pior: o investimento caiu e as exportações estão a abrandar.

Mais, os números mais recentes das exportações apontam para uma queda nas vendas para os países da zona euro (menos 1,1% entre Julho e Setembro deste ano, face a igual período de 2007) - como se esperava com a Alemanha e a Espanha em recessão.
Portugal vai, infelizmente, terminar o ano em recessão. E se nada mudar no quadro internacional, especialmente nos mercados de crédito e de capitais, o primeiro semestre do próximo ano vai ser muito difícil.

Há pouco dias o Governo mudou de discurso. Passou a ter declarações mais ajustadas à realidade. O que os números de hoje do INE revelam é que, enquanto o Governo - primeiro-ministro, ministro das Finanças e ministro do Trabalho - tiveram o discurso de "estamos a resistir" já muitos portugueses estavam em dificuldades.

Gerir expectativas assim desacredita os líderes. E nestes tempos difíceis, os portugueses precisam mais do que nunca de líderes.

O início do século XXI não tem sido generoso para Portugal.

domingo, 7 de dezembro de 2008

BPN e Casa Pia

Marcele Rebelo de Sousa hoje na RTP,
- Para exemplificar que o caso BPN nada tinha a ver com a actual liderança do PSD usa como comparação o caso Casa Pia (que, subentendeu-se, nada tinha a ver com a então liderança do PS)

Muito interessante.

A decisão de nacionalizar o BPN tem ainda um "racional" com falhas.
A proposta de Miguel Cadilhe - em que os esforço de recuperação do banco era partilhado entre o Estado e os accionistas - foi rejeitado sem qualquer negociação. (A remuneração oferecida ao Estado poderia ter sido negociada)

Sairia mais barato aos contribuintes portugueses.
Um dos contra-argumentos que me apresentam é: se os accionistas não tiveram dinheiro para a segunda tranche do aumento de capital que garantias existiriam de que tinham dinheiro para o novo plano. O pior é que os accionistas dizem que não aumentaram o capital porque já se sabia que o Governo ia decidir pela nacionalização.

Enfim. Esperemos que Marcelo não tenha razão. Viveremos infinitamente em efeito ricochete - saltando de casos em casos - com pouca Justiça.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Banco de Inglaterra - que diferença

Como votaram os membros do Banco de Inglaterra na decisão sobre taxas de juro durante os últimos doze meses.

A transparência que falta ao BCE.

Eis uma forte razão para os britânicos não quererem entrar no euro.

A Alemanha a cair

A economia alemã registará uma quebra na sua produção de 0,8% em 2009 com recuperação em 2010, uma previsão do Bundesbank .

Esta é uma péssima notícia.

Os dois maiores clientes das exportações portuguesas estão com graves problemas.

A exportação de mercadorias para Espanha e Alemanha correspondem a cerca de 40% das exportações portuguesas (dados de 2006, fonte Banco de Portugal)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O Banco Privado e os incentivos perversos

Foi publicado o Despacho com a garantia ao Banco Privado Português.

Oficialmente continuamos sem saber quais as garantias que o Estado recebeu.

Porque vale a pena reflectir sobre os efeitos perversos deste apoio ao BPP tomo a liberdade de sintetizar alguns dos comentários que estão aqui:

De NG
  • "As «lideranças portuguesas» podem defender os princípios que quiserem e podem não ser obrigadas a fazer o aumento de capital indispensável para salvar o banco (até porque podem não ter o dinheiro necessário). (...) O que não podem é passar por este sarilho em que comprometeram todos os contribuintes portugueses sem uma proporcional punição moral e patrimonial. Sob pena de, de hoje para amanhã, deixar de haver gente interessada em cultivar os campos, investir em fábricas, construir casas, por a actividade com menor risco em Portugal passar a ser a economia da fantasia de comprar activos com dinheiro emprestado a contar que eles se valorizem no dia seguinte (e dar-lhe uns nomes bonitos como alavancagem, Private Banking ou Corporate Advisory para disfarçar)."

Ainda de NG:

  • "Só existe uma (causa para esta crise), global e transversal: Nome técnico - Alavancagem. Alguns sinónimos: «com as calças do meu pai também eu pareço um homem», «gastar hoje o que talvez venha a ganhar um dia», «querer parecer mais do que aquilo que se é», «ganância», «gastar o que não se tem», «jogar com o dinheiro de outros», «armar-se aos cucos», «parecer mais que do ser», «contar com o ovo no da galinha», «arriscar mais do que se deve»,«aventureirismo», «economia de fantasia», «ganhar 20 e gastar 100», «vencedor dos mercados», e por aí fora..."

E o que se está a fazer ainda segundo NG:

  • "O mercado não é tonto por muito tempo e, tarde ou cedo, fala e gosta de ser ouvido. Mascarar a sua mensagem com bailouts e intervenções artificiais sem retirar consequências das imprudências é adiar e agravar as soluções.Ou esta crise consegue devolver uma certa humildade e sobriedade às pessoas, às empresas e aos mercados ou o que sobrar dela e o pouco que se consiga criar entretanto será por completo arrasado na seguinte."

Subscrevo inteiramente os alertas de NG. A questão é que solução?

  • Os accionistas do BPP - como de outros bancos por esse mundo fora - estão a beneficiar a externalidade extremamente negativa da sua falência. Os governos não têm outra alternativa - têm de intervir.
  • A questão pode estar em Como intervir? Estarão a intervir da forma mais adequada, aquela que minimiza o "moral hazard"? Estarão a minimizar os incentivos perversos de que fala NG? Absolutamente não.
  • A única via que vejo de combater os incentivos que vão germinar numa nova crise, ainda mais grave, seria ficar com os activos desses investidores: nacionalizar sem direito a indmenização. Do ponto de vista da racionalidade económica faz todo o sentido: o banco transformou-se num bem público, não peas sua características de indivisibilidade e não-rivalidade mas pelas externalidades negativas geradas pela sua falência.