sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Desacordos virtuais

"Dos contactos que tenho mantido com dirigentes de instituições de solidariedade, recolho informações que a maioria dos casos de 'novos pobres' está associada a situações de divórcio", Presidente da República, criticando também a nova lei do divórcio.

O divórcio sempre foi uma das principais causas de entrada em dificuldades financeiras por parte de famílias que antes estavam na classe média. É uma das principais causas que a banca detecta quando uma família deixa de pagar as prestações da casa, a outra é o desemprego. A nova lei do divórcio está envolta em controvérsia. É convicção do Presidente que fragiliza as mulheres. Mas valia a pena esperar que a nova lei fizesse algum caminho - uma vez que já foi aprovada - antes de voltar a criticá-la.


“A nossa proposta é a mais justa. As empresas orientam-se por si próprias. O PSD espera , por isso, que a maioria socialista aprove estas propostas”,
Líder do PSD, Manuela Ferreira Leite na apresentação das propostas para o Orçamento Suplementar.

O mercado o melhor mecanismo de organização da economia. Há uma excepção que ocorre neste momento: o mecanismo está com avarias graves como estamos a ver por todo o mundo ocidental. Há propostas do PSD que têm racionalidade, como a descida da TSU, mas podem ser necessárias ajudas directas. A critica aos apoios do Estado tem o seu argumento forte no critério de escolha. Mas, na actual conjuntura, os prejuízos causados pelos erros de algumas escolhas tendem a ser inferiores aos ganhos.

Gostava que o meu país fosse um pouquinho mais parecido com o que se lê que são os países nórdicos. Em tempos de dificuldade - tão grandes como as que agora enfrentamos - todos se unem na resolução dos problemas.

As diferenças não são assim tão grandes. Na verdade, estamos todos mais ou menos certos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A justiça, o jornalismo e as campanhas

A entrevista da Procuradora Cândida Almeida a Judite de Sousa foi extremamente importante - foram feitas as perguntas que queríamos ver respondidas e a Procuradora, que revela uma força e uma segurança que nos conforta, esclareceu o que podia que foi suficiente para percebermos que há nesta história uma elevada parcela de manipulação.

Revela ainda como é importante a Justiça dar a cara no palco mediático. Tem sido a sua recusa em comunicar - que como vimos é possível, respeitando o segredo de justiça - que viabiliza a manipulação.

Dito isto, é fundamental que não se responsabilize o mensageiro: os jornalistas que fizeram o seu trabalho respeitando as regras.

O que escrevi aqui mereceu várias criticas. De João Pinto e Castro e da Câmara Corporativa .

Um jornalista sabe que enfrenta sempre o risco de manipulação. Cabe-nos a nós jornalistas minimizar a manipulação tendo consciência que frequentemente não a conseguimos eliminar. Não tenho razões para considerar que as regras jornalísticas foram menos cumpridas neste caso que noutros.

Há em toda a história que veio a público partes que correspondem ao que está no processo e partes que não correspondem. Isso mesmo foi dito pela Procuradora na entrevista à RTP. Mas houve de facto um erro: o primeiro-ministro não é suspeito no único processo onde tudo tem origem - o que foi desencadeado pela carta anónima.

Quando se juntam todos os casos enfrentados pelo primeiro-ministro, parafraseando Cândida Almeida, qualquer pessoa que enfrentasse o que ele já enfrentou seria tentado, como ele, a concluir que "há campanhas negras" que o perseguem. Há racionalidade nessa conclusão pelas medidas que adoptou, duras para muita gente.

Um absurdo...e a ameaça a Portugal

Qual a probabilidade de o título que se segue ser manchete dos jornais ingleses?

"Polícia portuguesa suspeita de Gordon Brown"

Não sei, como ninguém sabe, o que se passou no caso Freeport.

Discordo de quem considera que o que está a sair nos jornais é apenas poluição.

Os protagonistas deviam preocupar-se mais em esclarecer o que está a ser publicado do que em debater as fugas de informação.

No meio de uma crise financeira, bancária e económica só precisávamos mesmo de uma crise política envolvendo o primeiro-ministro.

O que se está a passar é mesmo muito preocupante. Talvez a maior ameaça às mudanças que o país tanto precisa para garantir o regresso da prosperidade.

Sócrates tentou fazer um conjunto de reformas que ameaçaram os direitos adquiridos de muita gente no país. Todos diziam que era preciso fazer isso. Nunca ninguém o fez. Por variadas razões, muitas perfeitamente justificáveis, como a ausência de estabilidade política.

Se Sócrates for vencido sem ser em eleições, tenho dúvidas que mais alguém tenha a coragem de iniciar as reformas que se tentaram fazer - com mais ou menos sucesso - nesta legislatura.

Sendo ou não verdadeiro o que os maiores apoiantes de Sócrates dizem - sucessivos ataques ao primeiro-ministro praticamente desde que se candidatou - qualquer novo Governo terá naturalmente mais receio de ser tão reformista como este tentou ser.

É preciso evitar a habitual tentação saloia de dar carta branca a tudo o que é estrangeiro. (O que não significa que a história não seja notícia).

Sendo os pedidos de informação das autoridades judiciais inglesas enquadrados nos princípios de cooperação judicial, é bom não esquecer essa cooperação não existiu quando foi pedida por Lisboa. E que os ingleses teriam actuado de forma muito diferente se fossemos nós a pedir informações sobre o seu primeiro-ministro.

Dito isto, vale a pena esclarecer o mais depressa possível o que se está a passar.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Informação e fugas de...

Porque estamos, alguns, mais preocupados com a fuga de informação do que com a informação, em si?

A recessão global

O mundo vai estar em recessão este ano. Novas previsões do FMI.

A área do euro produzirá menos 2% este ano que em 2008.

Não me lembro de alguma vez o FMI ter feito revisões tão frequentes das suas previsões. Estamos quase na média de uma por mês.

Porque concordo... inflação e queda de preços

Encontrei e depois perdi este post de João Pinto e Castro que quero registar aqui:

Baixa de inflação não é o mesmo que baixa dos preços.

O alerta é para os jornalistas, com a recomendação para editores e directores.

Tem toda a razão. Em causa própria, posso apenas dizer que sempre que é possível - e nem sempre é, pela voragem que é fazer a notícia - o alerta e a correcção é feita.

Este saber é especialmente importante na actual conjuntura. Vamos ter meses em que, de facto, vai haver queda de preços.

Como devemos escrever ou "dizer" a deflação?
Começo pelo que não deveríamos dizer:
"A inflação foi negativa" .... a evitar por todos os meios

Melhor, mais perceptível por todos é dizer:
Os preços caíram face ao mês anterior ou em relação ao ano passado
O cabaz do INE custa agora menos ...% que no mês passado e/ou ...% que há um ano.

Em busca de notícias positivas...

Autoeropa concretizará este ano 80% do seu plano de investimento de 541 milhões de euros. O ano passado as vendas caíram mas a incorporação de produtos nacionais subiu
Pode ler-se hoje no Jornal de Negócios

Valorização do euro 'aumenta' lucros de algumas empresas portuguesas, como a Altri, BPI, Brisa, EDP e Edp Renováveis, Galp Energia, Mota-Engil, Portucel e Teixeira Duarte.
Também no Negócios em papel.


(Tentando fazer este exercício - embora não seja nada fácil)

Freeport - questões

Porque não nos queixamos às autoridades?

Uma das questões que me colocaram em conversas sobre o caso Freeport foi:

Se alguém estava a pedir dinheiro para um licenciamento - os tais 4 milhões referidos pelo tio de José Sócrates - porque ninguém fez uma denúncia?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Mais uns dias de silêncio...
Que espero não voltar a repetir. Pelo menos com esta fequência.

Hoje é mais um dia de turbulência na banca

O Banco Privado Português alvo de buscas por causa de operações financeiras com 'off-shores'. A ordem partiu, aparentemente, da Comissão de Mercados de Valores Mobiliários.

Dias Loureiro esta neste momento no Parlamento por causa do Banco Português de Negócios.

O BCP está no centro de muito diz que disse por causa da fragilidade da sua estrutura accionista.

E obviamente, o 'Caso Freeport' com todo o seu nevoeiro informativo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Uma inflação assustadora

Notícias da crise

Mais um dia entre o preocupante e o actuante:

Preocupante: A rápida queda da taxa de inflação.
Prefiro dizer que a média de preços do cabaz dos que avalia a evolução dos preços vai registar em breve uma queda. Em Portugal é certo, em alguns países da União também.

Não é deflação. Ainda.
Mas há neste momento uma perigosa mistura que pode conduzir grandes economias como a Alemanha e os Estados Unidos para um processo deflacionista.
1. O abrandamento da economia...
2. ...reduz a inflação e no limite pode provocar queda de preços
3. ...que por sua vez aperta as margens das empresas e a produção
3. ... que por sua vez conduz a despedimentos,
4. ...que por sua vez provoca novas reduções do consumo
5. ... que por sua vez provoca novos abrandamento da economia,
6. ... que por sua vez leva a nova redução dos preços e a adiamento de consumos de quem tem dinheiro....
7. ....E regressamos a 3.

É a espiral deflacionista clássica

Agora junte-se ao Abrandamento da economia de 1. A instabilidade financeira geradora de incerteza e medo do futuro - quem não tem dinheiro - está desempregado não consome pelas razões óbvias e quem tem dinheiro não consome não só porque espera que os preços baixem mais mas também porque poupa mais que o habitual por medo do futuro.

Animador (mais ou menos) - A descida das taxas de juro
Depois da asneira que fez em meados do ano passado, o BCE está finalmente a perceber os riscos que enfrenta.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Maus sinais

retirado de www.negocios.pt
As bolsas caíram hoje fortemente.
Mais um sinal de que o pior ainda não passou.
Como o demonstram outros casos passados e apresentados no início do ano no encontro anual da Associação de Economistas Americanos.*
Vale a pena ler "The Aftermath of Financial Crises" de Carmen M. Reinhart e Kenneth S. Rogoff e perceber o que nos pode esperar.
* A agenda do debate deste encontro anual revela bem como é que os economistas andam por vezes nas nuvens. A crise financeira teve aquele trabalho e um debate, e pouco mais. Há trabalhos sobre o que os economistas norte- americanos disseram do euro - "Reflections on American Views of the Euro Ex Ante: What We Have Learnt 10 years Ex Post" sábado dia 3 de Janeiro - e em matéria de actualidade ficamos por aqui.
Vale a pena ler "Why so little self-recrimination among economists?" - sobre a ausência de autocrítica entre os economistas ou uma reflexão que seja sobre as razões que justificam que tivessem errado tão calamitosamente em relação ao que se estava a passar no sistema financeiro e imobiliário nos Estados Unidos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Munições certas para a crise

Que medidas adoptar para combater a crise?
Respostas racionais:

Não se recomendam ajudas às empresas, descidas generalizadas de impostos, aumentos nos gastos públicos que perdurem, designadamente contratação de mais funcionários públicos.

Vale ainda menos a pena debater se o Estado deve ou não intervir. Como defendo hoje no Negócios, o mundo em que estamos a viver neste momento é mais próximo do universo do "Dilema do Prisioneiro" que de "Adam Smith". Num mundo desses o Estado tem condições decidir o que é melhor para a colectividade. Quando a estabilidade regressar, as nossas decisões individuais serão melhores que as do Estado.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

A recessão bate forte nos Estados Unidos

Notícias da crise

A taxa de desemprego nos Estados Unidos saltou de 6,8% em Novembro para 7,2% em Dezembro. Desapareceram um milhão de postos de trabalho em dois meses. Além do aumento do desemprego, as pessoas trabalham menos horas.

Via NYT:
The accelerating job loss — more than one million jobs have disappeared in
just two months — suggests that the recession will last at least into early
summer, making it the longest since the 1930s. The severe recessions of the
mid-1970s and early 1980s each lasted 16 months, the current record.

A actual recessão iniciou-se, segundo o NBER, em Dezembro de 2007. Os Estados Unidos estão no seu 13º mês de recessão. Se a recuperação não chegar no segundo semestre, como esperam os mais optimistas, o início de 2011 ainda pode ser de crise em Portugal.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Mais uma nacionalização (parcial)

Notícias da crise bancária

O Governo alemão assumiu o controlo de 25% do Commerzbank.

O zero cada vez mais próximo

As minhas desculpas por esta reduzida assiduidade.
Depois das férias o regresso
- com o primeiro-ministro a pronunciar pela primeira vez a palavra Recessão na entrevista à SIC na segunda-feira,
- as previsões do Banco de Portugal no dia seguinte a confirmarem a queda da produção este ano - e a controvérsia semântica do Orçamento Rectificativo, Suplementar ou, afinal o que consagra a nossa legislação, a perspectiva de alteração de um Orçamento que nasceu torto e viverá apenas poucos dias de vida.

A recessão passou a ser oficial. Com o adicional risco de deflação.

Hoje o Banco de Inglaterra baixou a sua taxa de juro de 2% para 1,5%, a mais baixa desse a criação do banco central em 1694. E apesar disso o Banco de Inglaterra revela-se preocupado com a possibilidade de a taxa de inflação cair para valores abaixo dos 2%, alimentada ainda pelo corte no IVA decidido pelo Governo de Gordon Brown:
In the United Kingdom, business surveys suggest that the pace of
contraction in activity increased during the fourth quarter of 2008 and that
output is likely to continue to fall sharply during the first part of this
year. (...) looking through the volatility in inflation associated with the
movements in Value Added Tax, there remained a significant risk of undershooting
the 2% CPI inflation target in the medium term at the existing level of Bank
Rate. Accordingly, the Committee concluded that a further reduction in Bank Rate
of 0.5 percentage points to 1.5% was necessary to meet the target in the medium
term.

Vivemos na praga de "tempos interessantes".

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Alguns (bons) adivinhos sobre a crise

Quem adivinhou os tempos difíceis?

  • Alguns, como Robert Schiller, aqui. Falta Nouriel Roubini. Mas vale a pena dar uma vista de olhos para perceber que as suas previsões neste momento não são consensuais. As perspectivas mais optimistas apontam para o início da trajectória d erecuperação dos Estados Unidos no segundo semestre de 2009.
  • Em 2005 na elitista reunião de Jackson Hole os avisos que os banquers centrais não quiseram ouvir de Raghuram Rajam com o seu paper aqui muito criticado na altura por Lawrence Summers
  • Em 2003, o alerta de economistas do Banco Internacional de Pagamentos.

Ter razão antes de tempo continua a ser não ter razão.

Um ano que será DIFÍCIL

É a palavra do ano: Difícil. Ninguém se atreve, só mesmo quem é obrigado pela profissão, a dizer quanto.

Os discursos políticos de fim de ano e boas vindas ao novo ano foram em regra desanimadores:
  • O primeiro-ministro, que passou quase todo o ano a recusar falar em dificuldades alterou completamente o discurso no dia em que o INE divulgou que afinal o PIB tinha caído no terceiro trimestre. A sua mensagem de Natal foi de dificudade:

O ano de 2009 vai certamente ser um ano difícil e exigente para todos.

  • O Presidente da República começou por dizer mais para o final do ano que o novo ano "não será fácil" e na sua mensagem de ano novo passou a dizer "muito difícil"

Não devo esconder que 2009 vai ser um ano muito difícil.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009